Relatório revela lacunas no conhecimento dos brasileiros sobre fatores de risco para o câncer
- FórumCCNTs

- há 3 dias
- 4 min de leitura
Estudo lançado em webinar promovido pela Vital Strategies, Umane e INCA aponta desafios para ampliar a redução de riscos da condição no Brasil
Com o objetivo de compreender como a população brasileira percebe os fatores de risco e proteção para o câncer, foi lançado em 3 de junho o relatório Mais Dados Mais Saúde: Percepções da População Brasileira sobre Fatores de Risco para o Câncer. Desenvolvido pela Vital Strategies e pela Umane, com apoio do Instituto Devive e suporte técnico do Instituto Nacional de Câncer, o INCA, o estudo apresenta dados inéditos sobre o conhecimento, as percepções e os comportamentos dos brasileiros em relação à redução de riscos da condição.

Os resultados foram apresentados durante webinar que reuniu representantes das instituições parceiras e especialistas em redução de riscos e manejo do câncer. O levantamento ouviu 6.566 pessoas com 18 anos ou mais em todas as regiões do país e buscou identificar o que a população sabe, acredita e pratica em relação aos principais fatores associados ao desenvolvimento do câncer.
Embora 99,1% dos entrevistados afirmaram conhecer ou já ter ouvido falar da condição, os dados revelam que cerca de 27% dos brasileiros não reconhecem que o câncer pode ser reduzido. Para os especialistas, esse resultado evidencia uma importante lacuna de conhecimento e reforça a necessidade de ampliar estratégias de educação em saúde e comunicação sobre redução de riscos.
Durante a abertura do evento, o diretor-geral do INCA, Roberto Gil, destacou que o câncer representa um dos principais desafios para a saúde pública brasileira. Segundo ele, o país deve registrar cerca de 881 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028, cenário que exige o fortalecimento das ações de redução de riscos e manejo.
"Sabemos que aproximadamente 40% dos casos de câncer podem ser evitáveis. Conhecemos os fatores de risco e precisamos transformar esse conhecimento em mudanças concretas de comportamento e em políticas públicas capazes de promover ambientes mais saudáveis", afirmou.
Entre os achados do estudo, o tabagismo aparece como o fator de risco mais reconhecido pela população, identificado por 90,5% dos entrevistados. Em contrapartida, fatores relacionados ao estilo de vida apresentam níveis significativamente menores de reconhecimento. Apenas 54,1% associam o excesso de peso ao risco de câncer e somente 27,5% reconhecem o consumo de carne vermelha como um fator relacionado ao desenvolvimento da condição.
A pesquisa também identificou desinformação sobre fatores de proteção. Cerca de 40,5% dos entrevistados não reconhecem o aleitamento materno como fator protetor contra alguns tipos de câncer, enquanto 61,3% acreditam, equivocadamente, que suplementos de vitaminas e minerais ajudam a reduzir o risco da condição.
O levantamento também analisou hábitos relacionados à alimentação e identificou padrões que merecem atenção. Cerca de 45% dos entrevistados relataram consumir alimentos ultraprocessados e tentar reduzir esse consumo, enquanto aproximadamente 15% afirmaram consumi-los sem intenção de mudança. Entre as bebidas adoçadas, 53% relataram consumo acompanhado de esforços para redução. Já em relação às carnes processadas, como presunto, salsicha e linguiça, 45% dos participantes disseram consumir e tentar reduzir a frequência.
A pesquisa também revelou baixa percepção dos riscos associados a alguns alimentos. Apesar das evidências que relacionam o consumo excessivo de carne vermelha e carnes processadas ao aumento do risco de câncer colorretal, apenas 27,5% da população reconhece a carne vermelha como fator de risco para a condição de saúde.

Em relação à atividade física, 52,2% dos entrevistados afirmaram praticar algum tipo de exercício. Entre aqueles que não praticam, 39% manifestaram intenção de começar, indicando potencial para ações e políticas públicas que estimulem hábitos mais saudáveis.

Quanto ao consumo de álcool, 50,1% da população declarou não consumir bebidas alcoólicas. Entre os consumidores, 32,5% afirmaram estar tentando reduzir a ingestão, enquanto 10,6% relataram consumir álcool sem buscar diminuir o consumo, reforçando a importância de ampliar a conscientização sobre seus impactos na saúde.

Outro aspecto destacado pelos especialistas foi a necessidade de fortalecer políticas públicas estruturantes. Durante o webinar, representantes das instituições envolvidas ressaltaram que informação de qualidade, regulação, tributação de produtos nocivos à saúde e promoção de ambientes saudáveis são medidas fundamentais para reduzir a exposição da população aos fatores de risco para o câncer.
Os dados também revelam desigualdades importantes. Jovens e pessoas de menor renda apresentam menor conhecimento sobre fatores de risco e maior exposição a comportamentos prejudiciais à saúde, indicando a necessidade de estratégias específicas para esses grupos.
Para Fábio Carvalho, coautor do estudo, professor de Educação Física e sanitarista da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do INCA, além de integrante do Grupo de Trabalho de Atividade Física do FórumCCNTs, os resultados mostram que informação e conhecimento são fundamentais para a redução de riscos, mas não bastam por si só. Segundo ele, ainda existem barreiras concretas que dificultam a adoção de hábitos saudáveis e reforçam a importância de políticas públicas voltadas à promoção da saúde.
"O alto reconhecimento do tabagismo como fator de risco é resultado de décadas de ações coordenadas, como campanhas, tributação e restrições ao consumo. Isso demonstra que mudanças na percepção da população são construídas por políticas consistentes ao longo do tempo", afirma.
Para o pesquisador, o cenário ainda é mais desafiador em relação ao álcool, aos alimentos ultraprocessados e às carnes processadas, que ainda não são amplamente reconhecidos como fatores de risco para o câncer. Apesar disso, ele avalia que os dados apontam avanços e oportunidades. "Saber que aproximadamente 40% das pessoas que não praticam atividade física têm intenção de começar é um dado importante para orientar políticas e programas de promoção da saúde. Existe uma demanda que pode ser transformada em ação quando as condições adequadas são oferecidas à população", destaca.




Comentários