Avanços no AVC, escalada dos casos de demências e de outras condições neurológicas no Brasil, revela estudo na The Lancet
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Publicação inédita aponta queda expressiva nas taxas de AVC no Brasil, mas alerta para o aumento das condições neurodegenerativas e diferenças entre homens e mulheres
As Condições Neurológicas e Lesões do Sistema Nervoso Não Transmissíveis (NINSDs, na sigla em inglês) — grupo que engloba acidentes vasculares cerebrais (AVC), demências, enxaqueca, epilepsia, lesões traumáticas, além de transtornos do neurodesenvolvimento e distúrbios neurodegenerativos — representam uma parcela massiva e crescente do fardo de saúde pública nas Américas.
Um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas analisou dados do Global Burden of Disease 2023 (GBD) cobrindo 38 países e territórios entre 1990 e 2023. O levantamento revela que 470 milhões de pessoas nas Américas vivem com pelo menos uma condição neurológica — o equivalente a 43,5% da população da região —, resultando em 1,1 milhão de mortes e 37,5 milhões de Anos de Vida Perdidos por Incapacidade ou Morte Precoce (DALYs), o que representa 12% de todo o impacto de DALYs por condições não transmissíveis e lesões no continente.
Para o Brasil, os achados trazem notícias positivas sobre a redução histórica na carga do AVC, mas expõem urgentes desafios estruturais no enfrentamento do envelhecimento populacional e nas disparidades de gênero e de acesso à saúde.
O cenário das condições neurológicas no Brasil: Queda do AVC com dados de alta qualidade
Uma das descobertas centrais do estudo refere-se à América Latina Tropical (composta por Brasil e Paraguai) e à América Latina Sul. Ambas as sub-regiões registraram as maiores quedas nas taxas de DALYs ajustadas por idade em todas as Américas entre 1990 e 2023.
No Brasil, a taxa de variação percentual anual (APC) do fardo neurológico padronizado por idade teve redução superior a 1,3% ao ano. Esse declínio foi substancialmente mais rápido do que o observado em sub-regiões de alta renda, como a América do Norte (EUA e Canadá), e no Caribe.
Solidez metodológica e o avanço contra o AVC:
Acidente Vascular Cerebral (Isquêmico e Hemorrágico): Historicamente a principal causa de mortes e incapacidade neurológica no país, o AVC apresentou queda contínua em suas taxas padronizadas por idade nas últimas três décadas — com redução média de 1,8% ao ano no AVC Isquêmico e 2,1% ao ano no AVC Hemorrágico, resultando em uma diminuição acumulada superior a 45% na taxa de DALYs por 100 mil habitantes entre 1990 e 2023.
Determinantes do progresso: A melhoria é atribuída a ações continuadas de saúde pública, incluindo a expansão da Atenção Primária à Saúde para o diagnóstico e manejo da hipertensão arterial, a implementação e consolidação das Unidades de AVC no Sistema Único de Saúde (SUS) e as políticas nacionais de manejo do tabagismo.
Contudo, os autores alertam: embora a taxa ajustada por idade tenha caído, o rápido envelhecimento e o crescimento populacional no Brasil fazem com que o número absoluto de pessoas afetadas continue elevado.
![Ref.: Pág 11 [Fig. 3: Age-standardised DALY rates per 100,000 population from all neurological conditions combined in 2023 and the annual percentage change from 1990 to 2023 across regions and countries of the Americas.]. Taxas de DALYs padronizadas por idade (2023) e taxa de variação percentual anual (APC 1990–2023) entre as regiões e países das Américas. Destaque para a expressiva redução observada no Brasil (América Latina Tropical) à esquerda da linha zero.](https://static.wixstatic.com/media/26ede1_690a42c335ba43799a07a4c73a220d99~mv2.png/v1/fill/w_47,h_36,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,blur_2,enc_avif,quality_auto/26ede1_690a42c335ba43799a07a4c73a220d99~mv2.png)
A transição epidemiológica: Do cuidado agudo às condições neurodegenerativas
A discussão publicada na The Lancet coloca em evidência uma importante mudança de paradigma na saúde pública. Enquanto condições vasculares e defeitos do tubo neural (como a espinha bífida, cuja taxa caiu 2,9% ao ano devido a políticas de suplementação de ácido fólico na gestação) apresentaram forte queda, as condições crônicas, progressivas e incapacitantes cresceram aceleradamente.
![Ref.: Pág 9 [Fig. 1: Age-standardised DALY rates per 100,000 people from noncommunicable conditions affecting the nervous system in 2023 against the annual percentage change (1990–2023) across specific conditions in the Americas]. Distribuição das 19 condições neurológicas por taxa de DALY e tendência temporal nas Américas. O tamanho dos círculos representa a prevalência das condições, destacando a enxaqueca e o Alzheimer/demências com fardo elevado e tendências crescentes.](https://static.wixstatic.com/media/26ede1_defbd0ecb664445893f462da7cfcc967~mv2.png/v1/fill/w_47,h_26,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,blur_2,enc_avif,quality_auto/26ede1_defbd0ecb664445893f462da7cfcc967~mv2.png)
Esse cenário gera um descompasso nos sistemas de saúde públicos e privados, historicamente desenhados para atender emergências agudas, mas ainda pouco estruturados para o manejo de longo prazo:
Enxaqueca e Demências: Foi adicionada a métrica de incapacidade em jovens (>1.200 YLDs por 100 mil hab.) e a taxa de perda em idosos 75+ (>8.500 DALYs por 100 mil hab.). A enxaqueca se consolida como a principal causa de anos vividos com incapacidade (YLDs) em jovens e adultos em idade produtiva (15 a 49 anos). Na população idosa (75+ anos), a condição de Alzheimer e outras demências lideram a perda de anos de vida saudáveis.
Aumento das condições neurodegenerativas: Condições Neurodegenerativas: Foram incluídas as taxas anuais específicas de crescimento do Parkinson (+0,8%/ano), Esclerose Múltipla (+0,5%/ano) e ELA (+0,7%/ano).
Transtornos do Neurodesenvolvimento: O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentou tendência de alta em todas as faixas etárias jovens (crescimento de ~1,2% ao ano em crianças menores de 5 anos), reforçando a necessidade de diagnóstico precoce e integração intersetorial.
Como as condições neurológicas afetam homens e mulheres
Análises detalhadas estratificadas por sexo (Figuras Suplementares 2 e 6 do Apêndice) revelam que a carga das condições neurológicas se manifesta de formas substancialmente diferentes entre os sexos nas Américas e no Brasil:
Categoria | Perfil Epidemiológico e Predominância por Sexo |
Predominância Feminina | Enxaqueca: Razão F:M de 2,6 para 1, figurando como a maior causa de incapacidade em mulheres jovens. Esclerose Múltipla: Razão F:M de 1,8 para 1. Demências e AVC Subaracnóideo: Apresentam fardo 32% superior em mulheres, fortemente impulsionado também pela maior expectativa de vida feminina. |
Predominância Masculina | Transtornos do Neurodesenvolvimento (TDAH e Autismo): Razão F:M de 0,4 para 1 (prevalência diagnosticada 2,5 vezes maior em homens jovens). Traumatismo Cranioencefálico (TCE): Razão F:M de 0,5 para 1, devido a causas externas. Condição de Parkinson e AVC Vascular Grave: Apresentam fardo 24% maior e mortalidade precoce em homens.. |
Ref.: Pág 27 [Supplementary Figure 6 do Apêndice (Ranking por DALYs para Homens [A] e Mulheres [B])]. Comparativo do ranking regional de condições neurológicas estratificado por sexo, destacando o impacto desproporcional da enxaqueca e demências nas mulheres e dos agravos vasculares e traumáticos nos homens.
Fatores de risco modificáveis e determinantes ambientais
O estudo reafirma que grande parte do fardo neurológico regional pode ser evitada por meio do manejo de fatores de risco modificáveis — eixo estratégico prioritário para a agenda de Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNTs):
1 - Riscos Metabólicos e Comportamentais
Hipertensão Arterial: Responde por 55,9% dos DALYs por AVC isquêmico e 55,6% por AVC hemorrágico nas Américas.
Glicemia de Jejum Elevada: É responsável por 19,7% da carga de DALYs atribuível ao Alzheimer e outras demências.
IMC Elevado, Colesterol LDL e Tabagismo: Apresentam forte contribuição conjunta para condições cerebrovasculares, enquanto o uso nocivo de álcool associa-se a novos quadros de epilepsia idiopática.
2 - Riscos Ambientais
Exposição ao Chumbo: O levantamento revelou que a contaminação por chumbo responde por 55,1% dos DALYs decorrentes da deficiência intelectual idiopática do desenvolvimento nas Américas, evidenciando a urgência de vigilância e regulamentações ambientais mais rígidas.
Caminhos e Perspectivas para o Brasil
Os dados trazidos pela The Lancet Regional Health – Americas evidenciam que o Brasil vive um momento decisivo: o país provou a eficácia de suas políticas públicas ao reduzir drasticamente o impacto do AVC, mas agora enfrenta o desafio urgente de adaptar seu sistema de saúde ao envelhecimento populacional. Para consolidar esses avanços e responder à crescente carga de incapacidade gerada pelas condições neurodegenerativas e demências, o país precisa alinhar as diretrizes do Plano de Ação Global Intersetorial sobre Epilepsia e Outros Transtornos Neurológicos (IGAP 2022–2031) da OMS aos compromissos do FórumCCNTs. Isso exige fortalecer a Atenção Primária no manejo da hipertensão e do diabetes — a exemplo da iniciativa HEARTS nas Américas —, capacitar equipes locais com apoio da teleneurologia no SUS e estruturar redes de reabilitação e cuidados de longa duração que ofereçam suporte contínuo às pessoas afetadas e aos seus cuidadores. Apenas uma abordagem integrada, preventiva e sensível às especificidades de gênero garantirá a preservação da saúde cerebral e da qualidade de vida da população brasileira em todas as fases da vida.
Leia o artigo completo e o apêndice suplementar na The Lancet Regional Health – Americas:
Martinez R, Thakur KT, Alviz LF, Varela FJ, Gardner WM, Hennis AJM, Oliveira e Souza R.
Fonte: The Lancet




