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Do Diagnóstico Precoce ao Tempo no Alvo: Evidências e Desafios para a Linha de Cuidado do Diabetes Tipo 1 no SUS

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    FórumDCNTs
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

No sábado, 1º de agosto de 2026, o evento interativo online FórumCCNTs/ADJ - Atualização em Diabetes Tipo 1 para o Cenário Brasileiro reuniu especialistas, gestores públicos, representantes da indústria e lideranças da sociedade civil para alinhar estratégias em prol do aperfeiçoamento das políticas de saúde para o Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1). Organizado pelo FórumCCNTs e pela ADJ Diabetes Brasil, o encontro contou com a moderação do Dr. Mark Barone (FórumCCNTs) e a participação de painelistas de referência — como Dra. Karla Melo (SBD), Dr. Luís Eduardo Calliari (FCMSCSP), Dra. Melanie Rodacki (UFRJ), Dr. Ronaldo Pineda Wieselberg (ADJ), Priscila Torres (Biored Brasil), Dra. Vanessa Montanari (IBTED) e Dra. Flavia Franca (SES-DF), além de representantes do setor produtivo (Abbott, Novo Nordisk e Sanofi).


O evento  teve como eixos centrais celebrar as conquistas de programas públicos, compreender inovações ainda não universalizadas no SUS — como diagnóstico precoce, sensores de glicose e novos medicamentos — e engajar a participação social para reverter a perda histórica de 25 anos na expectativa de vida de pessoas com DM1 no país.


Subdiagnóstico e Mortalidade Prematura: A Dimensão do Desafio no Brasil


O panorama nacional do DM1 expõe gargalos assistenciais desde o primeiro contato da pessoa com a rede pública. Levantamentos do T1D Index indicam a existência de cerca de 520 mil pessoas vivendo com DM1 no Brasil, ao mesmo tempo em que registram 246 mil mortes prematuras acumuladas. O indicador mais crítico do levantamento revela que 25% das pessoas com DM1 no país vão a óbito sem sequer receber o diagnóstico correto.


A ausência de suspeição clínica imediata na Atenção Primária à Saúde (APS) faz com que a primeira apresentação da condição ocorra predominantemente em unidades de emergência já em estado de Cetoacidose associada ao Diabetes (CAD). O atraso diagnóstico superior a 24 horas eleva a incidência de CAD na apresentação inicial de 20,5% para 52,3%.


Dr. Luís Eduardo Calliari (FCMSCSP). Foto: FórumCCNTs
Dr. Luís Eduardo Calliari (FCMSCSP). Foto: FórumCCNTs

O médico endocrinologista Dr. Luís Eduardo Calliari (FCMSCSP) destacou que o DM1 é uma condição autoimune com estágios pré-clínicos assintomáticos bem definidos, ressaltando a importância do rastreio e diagnóstico precoce para transformar essa realidade: "O diagnóstico precoce e a triagem nos estágios iniciais buscam preparar a família, evitar complicações agudas como a cetoacidose no diagnóstico e intervir antes da perda total das células beta. Hoje já é possível identificar a fase pré-clínica através dos autoanticorpos. Se nós conseguirmos interferir nesse momento e preservar a massa celular, a pessoa levará mais tempo até a necessidade de aplicação de insulina e menos complicações associadas à condição. Este mundo está vindo e já é uma realidade em termos de diretrizes e medicações aprovadas."


Perfil Glicêmico e Desfechos Clínicos na Rede Pública


Estudos epidemiológicos da BrazDiab1SG evidenciaram que pessoas com DM1 no Brasil enfrentam um risco de mortalidade três vezes maior em relação à população geral, impulsionado por Doença Renal Crônica (DRC), eventos cardiovasculares e complicações metabólicas agudas.


O estudo expõe a distância entre as metas terapêuticas e a realidade assistencial do SUS:


  • Média Nacional de HbA1c: Pessoas acompanhadas na rede pública apresentam média de Hemoglobina Glicada entre 9,0% e 9,3%.

  • Atingimento da Meta: Menos de 30% das pessoas atendidas no SUS mantêm a HbA1c na faixa recomendada para a maioria da população com diabetes (menor que 7%).


A permanência prolongada da glicemia acima das metas reflete-se em complicações micro e macrovasculares severas. Dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) indicam que o avanço da neuropatia e da vasculopatia periférica esteve associado à realização de mais de 282 mil cirurgias de amputação de membros inferiores no SUS entre 2012 e 2023.


Dra. Karla Melo (SBD). Foto FórumCCNTs
Dra. Karla Melo (SBD). Foto FórumCCNTs

A Dra. Karla Melo (SBD) destacou que superar esses números exige enfrentar as disparidades regionais de acesso e investir de forma massiva na formação continuada dos profissionais da rede básica: "Nós temos diversos Brasis, infelizmente, divididos pela região do país onde a pessoa reside e pela classe social a qual pertence. Mas estamos melhorando o acesso no SUS, e o processo de educação precisa ser duplo: para os profissionais de saúde e para as pessoas com diabetes. Com a migração da NPH para os análogos de insulina de ação prolongada na Atenção Primária, há um esforço concentrado junto ao Ministério da Saúde para capacitar profissionais em mais de 5,5 mil municípios em insulinoterapia."


Transição de Métricas: O Impacto Preditivo do Tempo no Alvo (TIR)


Um dos eixos do debate técnico do evento tratou das limitações da HbA1c como parâmetro isolado, por não refletir a variabilidade glicêmica diária nem identificar a frequência de hipoglicemias. Com a disseminação dos Sistemas de Monitoramento Contínuo de Glicose (CGM), o Tempo no Alvo (TIR) — percentual do tempo com glicemia entre 70 e 180 mg/dL — estabeleceu-se como a métrica central na predição de complicações:



A expansão do acesso a sensores de glicose e novas tecnologias de infusão/medicamentos no SUS configura, portanto, uma estratégia indispensável para reduzir internações de urgência e mitigar custos decorrentes de complicações crônicas.


Dra. Vanessa Montanari (IBTED). Foto: FórumCCNTs
Dra. Vanessa Montanari (IBTED). Foto: FórumCCNTs

Ao detalhar a fisiopatologia e os impactos econômicos das oscilações glicêmicas, a farmacêutica Dra. Vanessa Montanari (IBTED) reforçou a urgência da adoção do CGM na saúde pública: "A hemoglobina glicada às vezes está aparentemente adequada, mas esconde episódios recorrentes de hipoglicemia grave que geram taquicardia, hipertensão reativa, estado pró-inflamatório e arritmias. O Tempo no Alvo é a métrica mais consistente associada a complicações. Negar o acesso à monitorização contínua custa muito mais ao Estado do que fornecê-la: o uso do sensor reduz hospitalizações totais em 68%, insuficiência cardíaca em 75% e cetoacidose em 45%. O custo direto de uma internação por infarto ou AVC supera amplamente o fornecimento do dispositivo."


Fatores Intercorrentes e Imunização


As infecções respiratórias agudas representam fatores de variação glicêmica relevante em pessoas com DM1. Registros do SIVEP-Gripe do Ministério da Saúde apontam mais de 230 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e 13 mil óbitos no país em 2025. Em indivíduos com hiperglicemia sustentada, quadros infecciosos precipitam episódios de cetoacidose, tornando o esquema vacinal atualizado (incluindo a vacinação anual contra Influenza e a proteção contra outros agentes respiratórios) parte integrante da rotina preventiva.


Dr. Mark Barone (FórumCCNTs). Foto: FórumCCNTs
Dr. Mark Barone (FórumCCNTs). Foto: FórumCCNTs

Para o Dr. Mark Barone, especialista em saúde pública e coordenador do FórumCCNTs, a superação desses gargalos exige a convergência entre a ciência e os dados de vida real. "A consolidação de políticas públicas eficazes exige olharmos para o indivíduo de forma holística. No caso do diabetes tipo 1, integrando alimentação saudável, atividade física regular, sono de qualidade, vacinação e o monitoramento contínuo da glicose", destaca. Para ele, "a experiência vivida das pessoas com diabetes deve ser valorizada como outros tipos de evidência para balizar decisões do Estado e garantir equidade no acesso às tecnologias de saúde."


 Dr. Ronaldo Pineda Wieselberg (ADJ Diabetes Brasil). Foto: FórumCCNTs
 Dr. Ronaldo Pineda Wieselberg (ADJ Diabetes Brasil). Foto: FórumCCNTs

A viabilidade da ampliação do uso de tecnologias no SUS passa também pela descentralização do conhecimento e pela capacitação técnica das famílias e das equipes de saúde. O médico endocrinologista e presidente da ADJ Diabetes Brasil, Dr. Ronaldo Pineda Wieselberg, enfatiza o papel da educação em saúde no processo de engajamento nos autocuidados."Estudos econômicos nacionais já comprovam que o monitoramento contínuo de glicemia é custo-efetivo para pessoas insulino tratadas. A disponibilização dessa tecnologia, aliada à capacitação em contagem de carboidratos e a programas educativos estruturados, dá autonomia às famílias, evita internações de urgência e garante um modelo de assistência eficiente e sustentável no SUS", afirma. E conclui que "é inaceitável pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 1 no Brasil, aos 10 anos de idade, ainda enfrentarem redução de 25 anos da expectativa de vida."


A convergência entre os pilares debatidos reforça as diretrizes centrais para o fortalecimento do ecossistema assistencial público:


  • Tecnologias Essenciais: Monitoramento da execução da Lei nº 11.347/2006, assegurando a entrega contínua de insumos de automonitoramento na rede pública.

  • Linhas de Cuidado: Efetivação do protocolo no portal oficial de Linhas de Cuidado do Ministério da Saúde, garantindo a integração da APS à Atenção Especializada.

  • Equipes Multidisciplinares (e-Multi): Superação dos vazios assistenciais na Atenção Primária, dado que cerca de 55% dos municípios brasileiros não possuem equipes e-Multi registradas, privando pessoas do suporte de nutricionistas, psicólogos e profissionais de educação física.

Painelistas debateram importantes temas em evento do FórumCCNTs, em parceria com a ADJ Diabetes Brasil. Foto: FórumCCNTs
Painelistas debateram importantes temas em evento do FórumCCNTs, em parceria com a ADJ Diabetes Brasil. Foto: FórumCCNTs

A articulação promovida pelo FórumCCNTs e pela ADJ Diabetes Brasil fortalece a participação social e capacita lideranças civil-institucionais para atuar diretamente no aperfeiçoamento das políticas públicas, buscando assegurar um modelo assistencial justo, moderno e sustentável no Brasil.


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