top of page

Brasil avança na implementação do HEARTS 2.0 para fortalecer o gerenciamento integrado das CCNTs na Atenção Primária

  • Foto do escritor: FórumCCNTs
    FórumCCNTs
  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

Encontro na sede da OPAS, em Brasília, reuniu mais de 34 instituições para discutir a implementação da estratégia HEARTS 2.0 no Brasil, com foco na integração do cuidado, no fortalecimento do SUS e na melhoria do gerenciamento das condições cardiorrenal-metabólicas


Brasília, 12 de agosto de 2026 — Mais de 34 instituições se reuniram nesta quarta-feira, na sede da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em Brasília, para discutir os caminhos para a implementação da estratégia HEARTS 2.0 no Brasil, com foco no gerenciamento integrado das condições cardiorrenal-metabólicas na Atenção Primária à Saúde (APS).


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O encontro reforçou uma mensagem central: o Brasil já dispõe de grande parte da infraestrutura necessária para transformar a prevenção e o cuidado das condições crônicas não transmissíveis (CCNTs), mas precisa avançar na integração, na qualidade e na efetiva implementação do cuidado.


Atualmente, apenas cerca de 36% a 38% da população brasileira com hipertensão está com a condição dentro da meta. Segundo as estimativas apresentadas no encontro, elevar esse percentual para 50% poderia evitar quase meio milhão de mortes, demonstrando o enorme potencial de impacto de estratégias capazes de ampliar o diagnóstico, o tratamento adequado e o gerenciamento da hipertensão.


O Brasil conta com importantes vantagens para essa transformação, como o Sistema Único de Saúde (SUS), a Estratégia Saúde da Família, a ampla cobertura da Atenção Primária, os Agentes Comunitários de Saúde, o Farmácia Popular e uma crescente infraestrutura de saúde digital. Mais de 90% dos municípios possuem cobertura de atenção primária, alcançando aproximadamente 152 milhões de pessoas.


O desafio, portanto, não é apenas ampliar a oferta de serviços, mas fazer com que o sistema funcione de maneira mais integrada, coordenada e centrada nas necessidades das pessoas.


Superar a fragmentação para cuidar da pessoa como um todo


Um dos principais desafios identificados durante o encontro foi a fragmentação do cuidado. Pessoas que vivem simultaneamente com hipertensão, diabetes, doença renal crônica, dislipidemia ou outras condições frequentemente são acompanhadas por diferentes profissionais, em serviços distintos e, muitas vezes, em momentos separados.


Esse cenário reforça a importância de uma mudança de paradigma: as pessoas não devem ser tratadas como um conjunto de doenças isoladas, mas receber cuidado integrado, contínuo e coordenado ao longo de sua trajetória de vida.


Nesse contexto, a proposta do HEARTS 2.0 representa uma oportunidade para fortalecer a capacidade da Atenção Primária de prevenir complicações, identificar precocemente fatores de risco e condições crônicas e oferecer tratamento oportuno e baseado em evidências.


Outro obstáculo destacado foi a inércia terapêutica, quando o tratamento não é intensificado mesmo diante de níveis pressóricos acima das metas. A adoção de vias clínicas padronizadas, com esquemas terapêuticos claros e baseados em evidências, pode contribuir para reduzir esse problema.


Brasil já possui uma via clínica construída


Um dos avanços destacados no encontro foi a existência de uma via clínica brasileira desenvolvida em 2022, com participação do Ministério da Saúde, da OPAS e de especialistas, utilizando medicamentos disponíveis no SUS.


A proposta prevê o início do tratamento da hipertensão com combinação de dois medicamentos, em vez da monoterapia, seguida da intensificação terapêutica conforme a resposta da pessoa. A via também contempla a utilização de amlodipina em uma etapa posterior.


A discussão reforçou ainda a importância de disponibilizar estatinas de alta intensidade, como a atorvastatina ou a rosuvastatina, na Atenção Primária para pessoas de alto risco cardiovascular, evitando encaminhamentos desnecessários para a atenção especializada.


Outro ponto destacado foi que protocolos com medicamentos e doses claramente definidos tendem a favorecer melhores resultados no gerenciamento da hipertensão do que protocolos excessivamente abertos, que deixam maior margem para variações na prática clínica.


A experiência de Porto Alegre mostra que a implementação é possível


A experiência brasileira de implementação também esteve presente no encontro. A Dra. Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC e facilitadora do GT DCV Infarto e AVC do FórumCCNTs, compartilhou a experiência de implementação do HEARTS em Porto Alegre e os aprendizados acumulados nesse processo.

“A implementação do HEARTS mostra que temos condições de avançar quando conseguimos integrar gestão, equipes de saúde, protocolos e monitoramento em torno de um objetivo comum: garantir que cada pessoa tenha acesso ao cuidado adequado e consiga manter sua condição dentro da meta. A experiência de Porto Alegre demonstra que esse processo é possível no SUS, mas exige continuidade, organização do cuidado e compromisso de todos os atores envolvidos.”

A experiência reforça que protocolos e diretrizes precisam ser acompanhados de estratégias concretas de implementação, apoio às equipes, monitoramento de resultados e adaptação às realidades locais.


Mais do que protocolos: é preciso garantir implementação


A discussão também evidenciou que a existência de diretrizes e protocolos, embora essencial, não é suficiente para produzir mudanças sustentáveis na saúde da população.


Entre as barreiras identificadas estão a rotatividade dos profissionais, a formação ainda fragmentada dos trabalhadores da saúde, diferenças entre protocolos adotados por municípios, estados e União, dificuldades de acesso a equipamentos adequadamente validados e uma cultura de produção de relatórios que nem sempre se traduz em análise dos dados e melhoria contínua da qualidade.


Nesse sentido, a implementação do HEARTS deve ser acompanhada de metas claras, monitoramento de indicadores, qualificação das equipes, apoio aos gestores e mecanismos de melhoria da qualidade, permitindo que os dados produzidos nos serviços sejam efetivamente utilizados para transformar o cuidado.


Tecnologia, equipes e participação social como alavancas


O encontro identificou seis grandes alavancas para acelerar a implementação da estratégia no país: liderança e metas claras; uma via clínica padronizada; garantia de medicamentos e diagnóstico adequados; saúde digital; equipes multidisciplinares; e participação comunitária.


A participação dos Agentes Comunitários de Saúde foi destacada como estratégica para o rastreamento, a identificação de pessoas em risco e o fortalecimento do vínculo entre os serviços e as comunidades.


Da mesma forma, a participação da sociedade civil, das organizações de pessoas que vivem com CCNTs, da comunidade científica e de outros setores deve fazer parte da construção e da implementação das estratégias. Para que uma política de cuidado seja efetiva, é fundamental incorporar a perspectiva das pessoas que vivenciam diariamente as condições crônicas e os desafios de acesso, tratamento e continuidade do cuidado.


A infraestrutura digital existente também oferece oportunidades importantes. Cerca de 89% das unidades municipais já utilizam prontuário eletrônico, e 76% utilizam o e-SUS. A calculadora de risco cardiovascular do HEARTS já foi incorporada ao e-SUS pelo Ministério da Saúde, criando uma base para ampliar o uso sistemático de informações na tomada de decisão clínica.


Próximos passos


Entre os encaminhamentos discutidos estão a finalização e publicação da via clínica HEARTS 2.0 adaptada ao contexto brasileiro, a realização de autoavaliações da qualidade dos serviços de Atenção Primária, a discussão da estratégia nas instâncias de pactuação interfederativa e a revisão das listas de medicamentos essenciais.


Também permanecem em discussão questões como a escolha da calculadora de risco cardiovascular a ser adotada nacionalmente, a incorporação de novos medicamentos à via clínica — incluindo opções inovadoras — e a atualização das listas para ampliar a disponibilidade de combinações em doses fixas.


No Rio de Janeiro, está prevista a implantação inicial da estratégia em 21 municípios prioritários a partir de setembro, com apoio técnico dedicado.


Outro marco será o lançamento, em 23 de setembro, às 12h (horário de Brasília), de um número especial da Revista Pan-Americana de Saúde Pública dedicado ao HEARTS. Para o Brasil avançar no enfrentamento das CCNTs, o desafio é transformar conhecimento, protocolos e infraestrutura em cuidado efetivamente acessível, integrado, contínuo e de qualidade para as pessoas.


A implementação do HEARTS 2.0 pode representar uma oportunidade concreta para fortalecer a Atenção Primária e acelerar essa transformação — desde que seja acompanhada de liderança, coordenação entre os diferentes níveis de gestão, qualificação das equipes, participação social e compromisso permanente com a melhoria da qualidade do cuidado.


O FórumCCNTs seguirá acompanhando e contribuindo para iniciativas que fortaleçam o SUS e promovam uma abordagem integrada, centrada nas pessoas e orientada à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e ao gerenciamento das condições crônicas não transmissíveis.

Comentários


bottom of page