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Dia Nacional da Diálise reforça a importância da redução de riscos, do diagnóstico precoce e do protagonismo das pessoas no cuidado renal

Foto do escritor: FórumCCNTs
FórumCCNTs
há 4 dias
6 min de leitura

O cuidado das pessoas que vivem com condições renais crônicas precisa começar muito antes da diálise. Essa foi uma das principais mensagens do encontro Dia Nacional da Diálise, realizado em 27 de agosto, das 10h às 13h, na sede da empresa Vantive, em São Paulo, capital. O evento reuniu especialistas e representantes da sociedade para discutir os desafios relacionados à saúde renal e a construção de uma agenda de cuidado mais integrada, baseada em evidências, escuta e colaboração.


Para o FórumCCNTs, a discussão reforça uma perspectiva fundamental: falar de condição saúde renal crônica não significa falar apenas de terapia renal substitutiva. Significa fortalecer a prevenção e o controle dos fatores de risco, ampliar o diagnóstico oportuno, garantir acesso ao cuidado adequado e assegurar que as pessoas tenham informação e participação nas decisões relacionadas à própria saúde.


Atenção primária é estratégica para prevenir a progressão da condição renal


Durante o encontro, a Dra. Patrícia Abreu, diretora da Sociedade Brasileira de Nefrologia, destacou a importância de qualificar os profissionais da Atenção Primária à Saúde, que estão na linha de frente do cuidado da grande maioria das pessoas com condições renais. Segundo a especialista, cerca de 95% das pessoas com condições renais precisam ser acompanhadas no âmbito da atenção primária, tornando fundamental que as equipes estejam preparadas para reconhecer fatores de risco, realizar o rastreamento adequado, acompanhar a evolução da condição e identificar o momento oportuno para encaminhamento ao nefrologista.


Foto: FórumCCNTs
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Essa abordagem é particularmente relevante diante da forte relação entre saúde renal e condições como hipertensão, diabetes, obesidade e condições cardiovasculares. Dados apresentados no encontro mostraram, por exemplo, maior ocorrência de hipertensão, diabetes e problemas circulatórios entre pessoas sedentárias, reforçando a necessidade de uma abordagem que integre a saúde renal às demais condições crônicas.


A existência de protocolos clínicos e diretrizes para orientar esse cuidado é um importante instrumento para a organização da linha de cuidado. Mas, como ressaltado no encontro, é necessário que essas ferramentas sejam efetivamente incorporadas à prática dos serviços de saúde.


Medidas relativamente simples podem contribuir para o rastreamento, diagnóstico e monitoramento. Entre elas estão a dosagem da creatinina sérica e a avaliação da albuminúria, especialmente por meio da relação albumina/creatinina urinária. A identificação precoce de alterações permite acompanhar a função renal e atuar sobre fatores modificáveis antes que a condição evolua para estágios mais avançados.


Prevenir ou retardar a progressão da condição renal crônica também significa reduzir a necessidade futura de diálise, além de preservar qualidade de vida, autonomia e capacidade funcional das pessoas.


Informação ainda não chega de forma adequada à população


As apresentações também chamaram atenção para uma lacuna importante: o conhecimento da população sobre a saúde dos rins ainda é limitado.


Entre os dados apresentados, 20,3% das pessoas entrevistadas afirmaram não saber avaliar sua probabilidade de desenvolver uma condição renal. Apenas 15,4% perceberam seu risco como alto ou muito alto, enquanto 27,2% consideraram o risco médio e 24,3%, baixo.


Foto: FórumCCNTs
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O desconhecimento também aparece quando as pessoas são questionadas sobre as funções dos rins. Embora 81% reconheçam que os rins filtram o sangue e removem toxinas, poucas pessoas associam os órgãos a outras funções importantes, como a participação no controle da pressão arterial e da anemia.


Outro ponto de atenção é o reconhecimento dos sinais de alerta. Dor nas costas na região dos rins, inchaço dos membros inferiores e urina espumosa ou com sangue foram os sintomas mais frequentemente associados à condição renal. Entretanto, 10,6% disseram não saber identificar sinais ou sintomas, enquanto a relação entre hipertensão e saúde renal foi reconhecida por apenas 23,3% dos entrevistados.


Para o FórumCCNTs, esses resultados evidenciam que educação em saúde precisa fazer parte da política de cuidado, e não ser tratada como uma ação complementar. Informação qualificada pode ajudar as pessoas a reconhecer fatores de risco, procurar os serviços de saúde oportunamente e participar de forma mais ativa das decisões sobre seu cuidado.


Fazer exames não significa necessariamente compreender para que eles servem


Os dados apresentados também revelaram uma contradição importante. Embora exames de rotina façam parte da vida de grande parcela da população, existe pouco conhecimento sobre quais deles são especificamente relevantes para a avaliação da saúde renal.


O exame de urina foi reconhecido por 63,8% dos entrevistados como relacionado à saúde dos rins. Já a creatinina no sangue foi mencionada por 32,8% e a ureia por 38,5%. Ao mesmo tempo, 12,9% afirmaram não saber quais exames avaliam os rins.


Entre aqueles que realizaram exames de rotina nos dois anos anteriores, 42,9% fizeram dosagem de creatinina, 40,7% de ureia, 33,8% proteinúria e 28,5% relação albumina/creatinina na urina. A taxa de filtração glomerular foi mencionada por apenas 18,2%.

Os números reforçam a necessidade de aproximar acesso, informação e cuidado. Não basta ampliar a realização de exames: é preciso que as pessoas e os profissionais compreendam seu propósito e saibam como os resultados devem orientar o acompanhamento.


Medo e barreiras de acesso também interferem no cuidado


O encontro apresentou ainda dados sobre as barreiras que dificultam a realização de cuidados preventivos. Custo ou falta de dinheiro (31,9%) e falta de tempo (28,3%) aparecem entre os principais motivos para não realizar exames preventivos com maior frequência. A dificuldade de acesso também é relevante, especialmente em determinadas regiões do país.


Ao mesmo tempo, o medo permanece como uma barreira importante. 60,6% apontaram o medo de descobrir algo grave como seu principal temor relacionado à saúde, seguido pelo medo de não ter dinheiro para o tratamento (50,5%) e pelo medo de perder a independência (30,9%).


Esses dados mostram que promover o cuidado renal exige mais do que disponibilizar serviços. É necessário enfrentar barreiras financeiras, geográficas, informacionais e culturais, além de considerar os sentimentos e as prioridades das pessoas.


Existe vida além da diálise


A enfermeira Camila Barbosa trouxe outra dimensão fundamental para o debate: existe vida além da diálise.


Foto: FórumCCNTs
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A terapia renal substitutiva é uma parte do cuidado de uma pessoa com condição renal avançada, mas não pode definir toda a sua existência. Trabalho, estudos, relações familiares, atividades sociais, autonomia e projetos de vida continuam sendo dimensões essenciais.


Nesse contexto, a diálise peritoneal foi apresentada como uma das modalidades disponíveis de terapia renal substitutiva, com alternativas como a diálise peritoneal ambulatorial contínua (CAPD) e a diálise peritoneal automatizada (APD). Entre as características discutidas estão a possibilidade de realização do tratamento no domicílio e, em determinadas situações, maior flexibilidade para organizar a rotina.


Mas a mensagem central é que a escolha da modalidade deve ser individualizada e construída de forma compartilhada com a equipe de saúde, considerando condições clínicas, aspectos da cavidade abdominal, histórico cirúrgico, rotina, suporte disponível, autonomia e preferências da pessoa.


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Os dados apresentados também ajudam a dimensionar o desafio brasileiro. Segundo o Censo Brasileiro de Diálise 2025, citado durante o encontro, havia 173.408 pessoas em diálise crônica no país, sendo 4,2% em diálise peritoneal e 85,8% em hemodiálise — com a apresentação destacando ainda a participação da hemodiafiltração entre as pessoas com condições de saúde em hemodiálise.


Mais do que discutir qual modalidade é melhor, portanto, é necessário garantir que as pessoas conheçam as alternativas e tenham condições de participar da decisão sobre o tratamento.


Protagonismo das pessoas precisa estar no centro do cuidado


A Dra. Geovanna reforçou a importância de mudar a forma como falamos sobre condição renal crônica, colocando as pessoas que vivem com a condição no centro da discussão e reconhecendo seu protagonismo no tratamento.


Essa mudança de perspectiva é essencial para um modelo de atenção verdadeiramente centrado nas pessoas. O indivíduo não deve ser visto apenas como alguém que recebe procedimentos ou segue prescrições, mas como sujeito de direitos, decisões e escolhas, cuja experiência cotidiana precisa ser considerada na organização do cuidado.


A participação informada também é particularmente importante quando existem diferentes possibilidades terapêuticas. A decisão compartilhada permite que aspectos clínicos sejam considerados conjuntamente com valores, preferências, rotina, contexto familiar e condições sociais.


Conscientização precisa fazer parte da agenda de saúde renal


A Dra. Arcangela apresentou dados sobre o comportamento e o conhecimento da população diante da saúde renal, evidenciando a necessidade de ampliar as ações de conscientização.


Foto: FórumCCNTs
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Um dos dados mais expressivos diz respeito à própria diálise peritoneal: 59,5% dos entrevistados afirmaram nunca ter ouvido falar sobre a modalidade, enquanto apenas 9,8% disseram conhecê-la bem. Em contraste, 93,4% já haviam ouvido falar em hemodiálise.


A diferença evidencia como o conhecimento sobre as opções de tratamento é desigual e reforça a importância de oferecer informação acessível e baseada em evidências antes que a pessoa precise tomar uma decisão em situação de maior vulnerabilidade.


Uma agenda que começa antes da diálise


A participação no Dia Nacional da Diálise reforça uma agenda que dialoga diretamente com as prioridades do FórumCCNTs: prevenir, diagnosticar precocemente, qualificar a atenção primária, integrar o cuidado, reduzir desigualdades de acesso e garantir o protagonismo das pessoas que vivem com condições crônicas.


A saúde renal precisa ser incorporada de maneira mais efetiva à agenda das condições crônicas não transmissíveis. Isso significa fortalecer a capacidade da Atenção Primária para identificar riscos e acompanhar as pessoas; garantir acesso a exames essenciais; estabelecer fluxos adequados de encaminhamento; ampliar o conhecimento da população; e assegurar que, quando a terapia renal substitutiva for necessária, as diferentes alternativas sejam apresentadas de forma clara e em um processo de decisão compartilhada.


Cuidar dos rins é, antes de tudo, cuidar das pessoas. E esse cuidado começa muito antes da diálise.

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