Segurança no cuidado para pessoas com CCNTs entra no centro da agenda global da OMS

OMS lança campanha do Dia Mundial da Segurança do Paciente 2026 com foco nas condições crônicas e apresenta cinco metas para transformar evidências em ações concretas nos serviços de saúde
Uma em cada seis pessoas que recebem cuidados para condições não transmissíveis (CCNTs) sofre algum dano evitável. Entre pessoas com câncer, a proporção chega a uma em cada cinco. Esses dados, apresentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante o lançamento global da campanha do Dia Mundial da Segurança do Paciente 2026, ajudam a dimensionar um problema que ainda permanece pouco reconhecido: para milhões de pessoas com CCNTs, a segurança do cuidado não é uma questão pontual, mas um desafio que acompanha toda a trajetória de vida.

Com o tema “Safe care for noncommunicable diseases” — “Cuidado seguro para condições crônicas não transmissíveis” e o slogan “Safe care for life!” — “Cuidado seguro para toda a vida”, a campanha de 2026 coloca as pessoas com CCNTs no centro da agenda de segurança do cuidado e chama governos, serviços de saúde, profissionais, organizações da sociedade civil, pessoas com experiência vivida e parceiros nos cuidados a atuarem conjuntamente para reduzir danos evitáveis.
Um problema de escala global — e ainda subestimado
A dimensão do problema é expressiva. Globalmente, uma em cada dez pessoas é vítima de algum dano durante o cuidado em saúde, enquanto mais de 3 milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência de cuidados inseguros. Mais da metade desses danos é considerada evitável.

Quando o olhar se volta especificamente para as CCNTs, a situação se torna ainda mais preocupante.
Aproximadamente 16% — ou uma em cada seis pessoas — sofrem danos evitáveis durante o cuidado de condições crônicas não transmissíveis. A proporção é cerca de três vezes superior à observada na população geral em cuidados de saúde, estimada em aproximadamente uma em 20.
Os números não representam uma taxa fixa aplicável a todas as populações ou contextos — há importante heterogeneidade entre condições, grupos de pessoas e sistemas de saúde. Ainda assim, a evidência deixa clara a necessidade de incorporar a segurança como componente estrutural do cuidado às CCNTs.
E há uma característica particularmente importante: os danos não se restringem a erros visíveis ou eventos adversos ocorridos dentro de um serviço de saúde. Medicamentos estão entre os principais fatores associados a danos evitáveis, mas também precisam ser considerados problemas como atrasos ou falhas no diagnóstico, perda de informações entre serviços, ausência de acompanhamento, interrupções no cuidado e dificuldades nas transições entre diferentes profissionais e níveis de atenção.
O custo da falta de segurança também é econômico
Além do impacto humano, a segurança do cuidado representa uma questão de sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Nos países da OCDE, até quatro em cada cinco pessoas com 45 anos ou mais que utilizam a atenção primária vivem com pelo menos uma condição crônica, enquanto quase dois terços convivem com múltiplas condições crônicas.
Entre pessoas com quatro ou mais condições crônicas, as chances de relatar um dano são 3,2 vezes maiores. Ao mesmo tempo, internações potencialmente evitáveis relacionadas às condições crônicas representam cerca de 47,5 milhões de dias de leito, com um custo de oportunidade superior a US$ 21 bilhões nos países da OCDE. Os danos relacionados a medicamentos acrescentam um impacto estimado em mais de US$ 50 bilhões.
Os dados reforçam uma mudança importante de perspectiva: em condições crônicas, a segurança não pode ser avaliada apenas em uma consulta ou em um episódio isolado. É preciso perguntar se o cuidado é coordenado, contínuo e confiável ao longo dos anos.
A própria experiência das pessoas atendidas pelo sistema é um indicador relevante de segurança. Na pesquisa PARIS, da OCDE, que envolveu mais de 100 mil pessoas em 19 países, dificuldades para conseguir atendimento oportuno, cuidado fragmentado, necessidade de repetir informações e falta de coordenação apareceram entre os fatores associados a maior risco de eventos de segurança.
Por outro lado, pessoas que relataram receber um cuidado bem organizado apresentaram aproximadamente redução pela metade da probabilidade de relatar um evento de segurança em seus cuidados. Continuidade com um profissional de referência, revisão de medicamentos, coordenação do cuidado, comunicação clara, tempo adequado para a consulta, participação nas decisões e confiança para realizar o autocuidado também apareceram como fatores protetores.
Melhorar a experiência das pessoas no sistema de saúde, portanto, também é uma intervenção de segurança
O dano nem sempre acontece de uma vez
Essa compreensão foi reforçada durante o painel internacional do lançamento, que contou com a participação de Mark Barone, do Fórum Intersetorial de CCNTs no Brasil (FórumCCNTs).
Em sua contribuição, Barone chamou atenção para uma dimensão frequentemente invisibilizada da segurança: os danos que acontecem silenciosamente, ao longo do tempo.
Para quem vive com uma CCNT, a experiência de insegurança pode estar associada a um diagnóstico que demora, a um tratamento que não é adequadamente explicado, a um medicamento que não está disponível, à perda de informações na passagem de um serviço para outro, a profissionais que trabalham com informações diferentes, à introdução de uma tecnologia sem suporte suficiente ou simplesmente ao fato de a pessoa não ser ouvida.
“Precisamos deixar de pensar na segurança do cuidado simplesmente para as pessoas e avançar para um modelo em que as pessoas com CCNTs sejam parceiras na identificação e na redução de riscos dos riscos, incluindo no desenvolvimento de protocolos e políticas para o tema. A segurança do cuidado precisa fazer parte da agenda das CCNTs, e não ser tratada como uma agenda paralela.”
Essa perspectiva está diretamente alinhada ao conceito de engajamento significativo de pessoas com CCNTs, ao reconhecer que elas não devem ser apenas receptoras de orientações, mas participantes ativas da construção, implementação e avaliação de serviços mais seguros.
Cinco metas para transformar segurança em prática
A OMS apresentou cinco metas de segurança para 2026. A própria OMS destaca que as metas buscam facilitar mudanças concretas no ponto de cuidado e reduzir danos evitáveis às pessoas com CCNTs.

1. Parceria: Pessoas com experiência vivida devem ser parceiras tanto do próprio cuidado quanto na melhoria dos serviços.
2. Redução de riscos: A segurança começa antes do atendimento e exige reduzir riscos e avaliação adequada dos riscos, inclusive fora das unidades de saúde.
3. Manejo seguro e integrado: Os sistemas devem assegurar detecção oportuna, diagnóstico preciso e manejo integrado, seguro e centrado nas pessoas.
4. Acesso e uso seguro de medicamentos e dispositivos: É necessário garantir acesso a medicamentos e dispositivos médicos, além de apoiar as pessoas para que saibam utilizá-los com segurança.
5. Coordenação e continuidade do cuidado: As pessoas não podem “cair nas lacunas” existentes entre profissionais, serviços e níveis de atenção. É necessário fortalecer a coordenação, a continuidade e as transições do cuidado.
As metas não representam novas recomendações clínicas. Segundo a OMS, elas reúnem recomendações já existentes sob a perspectiva da segurança das CCNTs, criando uma estrutura prática para sua aplicação nos serviços.
Cada meta contempla ações relacionadas a cinco dimensões: pessoas; capacidades e competências; tarefas e processos de cuidado; ferramentas, equipamentos e tecnologias; e governança e sistemas, além de medidas para acompanhar o progresso.
Entre os indicadores sugeridos está, por exemplo, a taxa de perda de seguimento e a taxa de readmissão hospitalar — medidas que ajudam a revelar se as pessoas estão conseguindo permanecer conectadas ao cuidado de que necessitam.
Da política ao território: segurança precisa atravessar toda a jornada
A campanha também chama atenção para a necessidade de superar uma visão hospitalocêntrica da segurança. Para as pessoas com CCNTs, grande parte do cuidado acontece na atenção primária, na comunidade e dentro de casa, onde decisões sobre medicamentos, dispositivos, alimentação, atividade física, monitoramento e busca de atendimento são tomadas diariamente.

No caso das crianças e adolescentes com CCNTs, por exemplo, a transição para o cuidado de adultos, geralmente entre 14 e 17 anos, é apontada como um problema global ainda pouco estruturado, independentemente do nível de renda dos países. A recomendação é começar a construir essa transição precocemente e em conjunto com jovens e famílias.
17 de setembro: mais do que uma data, um chamado à ação
O Dia Mundial da Segurança do Paciente acontece em 17 de setembro, mas a proposta da campanha é que a mobilização não termine nessa data. A OMS incentiva serviços e organizações a identificar suas principais lacunas de segurança, adaptar as cinco metas ao contexto local e estabelecer indicadores para acompanhar avanços.
Organizações também são estimuladas a promover atividades, utilizar os materiais da campanha e iluminar monumentos e espaços públicos na cor laranja em 17 de setembro. A própria OMS disponibiliza materiais da campanha — incluindo pôsteres, infográficos, vídeos e conteúdos para redes sociais — em seis idiomas oficiais das Nações Unidas, permitindo que governos, serviços, organizações da sociedade civil e movimentos de pessoas com CCNTs adaptem e ampliem a mensagem em seus próprios contextos.
Para o FórumCCNTs, a mensagem que emerge desse movimento internacional é clara: não haverá cuidado verdadeiramente centrado nas pessoas se ele não for também seguro, contínuo, coordenado e construído com as pessoas com CCNTs.
A segurança não começa quando uma pessoa entra em uma unidade de saúde — e tampouco termina quando deixa o serviço. Ela está presente no diagnóstico, na prescrição, no acesso aos medicamentos, na comunicação com e entre profissionais, na transição entre serviços, no acompanhamento, no autocuidado e nas decisões tomadas todos os dias.
Por isso, “Safe care for life!” não deve ser entendido apenas como o slogan de uma campanha. É uma expectativa legítima de toda pessoa com uma condição crônica: receber, ao longo de toda a vida, um cuidado seguro, integrado, contínuo e centrado nas pessoas.




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