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Câncer de pulmão: diagnóstico precoce, rastreamento e cuidado integrado são apontados como prioridades para reduzir mortes no Brasil

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    FórumCCNTs
  • há 7 horas
  • 6 min de leitura

Especialistas e representantes da sociedade civil defendem ação coordenada para enfrentar condição de saúde que é a principal causa de morte por câncer no país


O câncer de pulmão é hoje um dos principais desafios para o manejo do câncer no Brasil. Estima-se que o país registre entre 30 mil e 35 mil novos casos e aproximadamente 20 mil mortes pela condição de saúde a cada ano. Para especialistas e representantes da sociedade civil reunidos pelo Fórum Intersetorial de Condições Crônicas Não Transmissíveis no Brasil (FórumCCNTs), reduzir essa mortalidade exige transformar o conhecimento científico e as tecnologias disponíveis em políticas públicas capazes de assegurar redução de riscos, diagnóstico oportuno, tratamento adequado e cuidado de qualidade.


Foto: FórumCCNTs
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O principal obstáculo está no diagnóstico tardio: cerca de 80% dos casos são identificados em estágios avançados e, em alguns estados, essa proporção chega a quase 90%. A diferença no prognóstico de acordo com o estágio é expressiva: a sobrevida em cinco anos pode chegar a 80% no estágio I, enquanto permanece inferior a 10% no estágio IV, mesmo com os avanços em imunoterapia e terapias-alvo.


Foto: FórumCCNTs
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Temos uma diferença enorme de prognóstico entre identificar o câncer de pulmão precocemente e chegar ao diagnóstico em uma fase avançada. O desafio é fazer com que o diagnóstico oportuno deixe de ser uma exceção e passe a fazer parte de uma resposta organizada do sistema de saúde”, afirmou Daniel Bonomi, diretor científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica (SBCT).


Rastreamento pode reduzir mortalidade em até 24%


Entre as medidas com maior potencial de impacto está a implementação de um programa nacional estruturado de rastreamento do câncer de pulmão por tomografia computadorizada de baixa dose.


Foto: FórumCCNTs
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Segundo Gustavo Prado, da Aliança Brasileira Contra o Câncer de Pulmão, “estudos realizados na América do Norte e nos Países Baixos, envolvendo mais de 65 mil participantes, demonstraram redução de 20% a 24% na mortalidade por câncer de pulmão com o rastreamento. Estudos realizados posteriormente na Itália, Alemanha, Dinamarca e Brasil também confirmaram os benefícios da estratégia”.


As recomendações discutidas no encontro contemplam pessoas que fumam ou que deixaram de fumar, entre 50 e 80 anos, com carga tabágica superior a 20 maços-ano, para realização anual de tomografia por pelo menos três anos. Apesar das evidências disponíveis, o Brasil ainda não conta com um programa nacional de rastreamento estruturado no SUS. As iniciativas existentes são isoladas e não estão organizadas em uma estratégia nacional.


Há também evidências brasileiras de custo-efetividade do rastreamento. O INCA desenvolve um projeto-piloto no Rio de Janeiro para produzir evidências de mundo real e avaliar o impacto econômico da estratégia no contexto brasileiro. Os participantes defenderam ainda a submissão formal do rastreamento à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC).


“Não estamos falando apenas de uma hipótese. Existe evidência robusta de redução de mortalidade e já existem estudos brasileiros mostrando que o rastreamento pode ser custo-efetivo. Precisamos avançar para uma política estruturada, com critérios, financiamento e acompanhamento adequado”, destacou Gustavo Prado.


A experiência do Hospital de Câncer de Barretos foi apresentada por Celina Martins, do Instituto Vencer o Câncer (IVOC), como exemplo de que é possível modificar o cenário. Em cinco anos, a instituição registrou 44% dos diagnósticos em estágio precoce, em contraste com a realidade nacional, na qual aproximadamente 80% dos casos são diagnosticados em estágios avançados.


Diagnóstico oportuno também é uma estratégia de sustentabilidade


O diagnóstico precoce foi apontado não apenas como uma medida capaz de ampliar as possibilidades de tratamento, mas também como uma estratégia de maior eficiência para o sistema de saúde. Rodrigo Saar, pesquisador do INCA, apresentou dados que evidenciam essa relação: o tratamento da condição de saúde metastática pode chegar a ser oito vezes mais caro.


Foto: FórumCCNTs
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O encontro também destacou avanços recentes no financiamento da atenção oncológica. Segundo Gustavo Prado, uma portaria publicada em 2024 instituiu o componente de Assistência Farmacêutica Oncológica e criou uma linha específica de financiamento para medicamentos oncológicos. Entre as mudanças previstas estão o aumento do reembolso via APAC e a possibilidade de compras centralizadas, com potencial para acelerar o acesso a medicamentos já incorporados.


Uma linha de cuidado integrada para reduzir os gargalos


Outro ponto de convergência foi a necessidade de fortalecer uma linha de cuidado do câncer de pulmão, articulando desde a atenção primária até o diagnóstico, estadiamento e tratamento especializado.


Foto: FórumCCNTs
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“Hoje, a organização do cuidado é uma estrada esburacada”, afirmou Celina Martins, ao destacar os obstáculos encontrados pelas pessoas em diferentes etapas do cuidado. O câncer de pulmão também foi apontado entre as condições mais afetadas pelo descumprimento do prazo legal de 60 dias para início do tratamento.


Entre as propostas discutidas estão a organização de fluxos integrados envolvendo pneumologia, radiologia e cirurgia torácica, o uso de telemedicina para ampliar o acesso em regiões remotas e a qualificação da atenção primária para identificação e encaminhamento oportunos de alterações pulmonares.


Também foi destacada a importância da navegação de pessoas com câncer, com apoio para superar barreiras e organizar o percurso de cuidado. O INCA está desenvolvendo um guia técnico para apoiar instituições na implementação dessa abordagem. Após a confirmação diagnóstica, os participantes defenderam que a definição terapêutica seja realizada por equipes multidisciplinares, envolvendo oncologia, radioterapia e cirurgia torácica, de acordo com as necessidades de cada pessoa.


Redução de riscos do tabagismo continua essencial


O uso de produtos de tabaco permanece como o principal fator de risco associado ao câncer de pulmão. Segundo os dados apresentados, 85% das pessoas com câncer de pulmão fumam ou já fumaram. Ao mesmo tempo, os participantes chamaram atenção para o crescimento de casos entre pessoas sem histórico de uso de tabaco e para fatores ambientais como poluição, radônio, queimadas e mudanças climáticas.


O fortalecimento das políticas de redução de riscos do tabagismo, especialmente entre crianças e adolescentes, foi apontado como prioridade. Entre as medidas defendidas estão a proibição de aditivos de aromas e sabores em produtos de tabaco e a adoção de tributação capaz de desestimular o consumo.


Foto: FórumCCNTs
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“Reduzir os riscos a iniciação ao tabagismo continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir a carga futura do câncer de pulmão. Precisamos proteger especialmente crianças e adolescentes e enfrentar estratégias que tornam esses produtos mais atrativos”, afirmou Mariana Pinho, coordenadora do Projeto Tabaco da ACT Promoção da Saúde.


Os participantes também manifestaram preocupação com os cigarros eletrônicos e defenderam o fortalecimento das políticas de manejo do tabaco. No SUS, já existem alternativas farmacológicas para o tratamento da dependência, incluindo adesivos e goma de nicotina e bupropiona.


Participação social deve fazer parte da resposta


O encontro também discutiu os desafios para transformar evidências em políticas públicas. O PL 2.550/2024, que originalmente tinha como foco a implementação do rastreamento do câncer de pulmão, foi citado como exemplo das dificuldades enfrentadas para manter o tema na agenda legislativa.


O estigma relacionado ao câncer de pulmão e ao tabagismo foi apontado como uma barreira adicional. A associação entre a condição de saúde e o comportamento de fumar pode contribuir para a culpabilização das pessoas e reduzir a mobilização social em torno do tema.


“Precisamos fortalecer a voz das pessoas que vivem com câncer de pulmão nas decisões que afetam sua saúde. A participação social pode ajudar a transformar uma questão que muitas vezes permanece invisível em uma prioridade de política pública”, destacou Celina Martins.


A Aliança Brasileira contra o Câncer de Pulmão, formada inicialmente por SBPT e SBCT e articulada com outras entidades, foi apresentada como uma iniciativa para integrar diferentes organizações e ampliar a capacidade de advocacy em torno da condição de saúde.


Prioridades para reduzir mortes


Ao final do encontro, especialistas e representantes da sociedade civil convergiram em torno de prioridades para reduzir a mortalidade por câncer de pulmão no Brasil:


  • estruturar um programa nacional de rastreamento com tomografia de baixa dose;

  • atualizar protocolos e diretrizes de diagnóstico e tratamento;

  • fortalecer uma linha de cuidado integrada, da atenção primária ao tratamento especializado;

  • ampliar a navegação e o apoio às pessoas com câncer;

  • garantir financiamento e acesso efetivo às tecnologias incorporadas ao SUS;

  • fortalecer políticas de redução de riscos e manejo do tabagismo;

  • enfrentar a expansão dos cigarros eletrônicos;

  • ampliar a participação das pessoas afetadas pela condição de saúde e da sociedade civil na formulação das políticas públicas; e

  • articular governo, sociedades científicas, instituições de pesquisa, setor privado e organizações da sociedade civil em torno de uma agenda comum.


“Temos evidências, profissionais qualificados, tecnologias e experiências que mostram que é possível fazer diferente. O desafio é transformar esses elementos em uma resposta coordenada, capaz de ampliar o diagnóstico oportuno e o acesso ao cuidado adequado e, sobretudo, reduzir mortes evitáveis”, concluiu Mark Barone, do FórumCCNTs, moderador do encontro.

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