Saúde cardiovascular: da evidência à ação

FórumCCNTs reúne especialistas, gestores, academia e sociedade civil e constrói agenda de compromissos para fortalecer a redução de riscos e o cuidado cardiovascular na Atenção Primária
As condições cardiovasculares seguem entre os principais desafios de saúde pública no Brasil. Elas respondem por aproximadamente um em cada quatro óbitos no país e por cerca de 34% das mortes por condições crônicas não transmissíveis. Ao mesmo tempo em que a taxa padronizada de mortalidade cardiovascular caiu de mais de 300 para 147 óbitos por 100 mil habitantes entre 1990 e 2023, a carga absoluta da condição de saúde aumentou: estima-se que 16 milhões de pessoas convivam atualmente com condições cardiovasculares no Brasil, cerca de 50% mais do que em 1990.

Esse cenário esteve no centro do encontro “Saúde Cardiovascular na APS: Diagnóstico Precoce, Biomarcadores e Tratamento de Qualidade para Evitar Infarto e Morte Prematura”, promovido pelo Fórum Intersetorial de CCNTs no Brasil (FórumCCNTs), que reuniu representantes do Ministério da Saúde, ANS, sociedades científicas, universidades, serviços de saúde, setor privado e sociedade civil.
Mais do que identificar desafios, o encontro buscou acelerar avanços em programas e políticas de saúde cardiovascular, aproximando as recomendações científicas da realidade dos serviços. Como resultado, os participantes construíram uma Carta de Recomendações ao Ministério da Saúde, CONASS, CONASEMS e demais autoridades, com propostas concretas para ampliar o diagnóstico oportuno, qualificar a estratificação de risco, garantir acesso a tratamentos adequados e fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS).
Um enorme espaço entre risco, diagnóstico e cuidado
Na abertura, Mark Barone, coordenador-geral do FórumCCNTs, ressaltou a importância da articulação intersetorial para transformar evidências em políticas públicas. Marcela Tulli (Lilly) e Antonio Vattimo (Aché) também participaram da abertura.

Na primeira mesa, moderada por Aline Marcadenti (HCor), Carisi Polanczyk (UFRGS/Hospital de Clínicas de Porto Alegre) apresentou o panorama epidemiológico das condições cardiovasculares e as lacunas ainda existentes no diagnóstico e no cuidado.

Os números mostram a dimensão do desafio. Entre pessoas com 60 anos ou mais, aproximadamente 55% apresentam hipertensão, mas somente cerca de 60% sabem que têm o diagnóstico; metade está em tratamento e apenas 30% apresenta níveis adequados de pressão arterial. No diabetes, cuja prevalência está entre 10% e 11%, cerca de 34% das pessoas que utilizam medicamentos não atingem níveis adequados de glicemia.
Nas dislipidemias, a diferença entre o que é conhecido e o que efetivamente existe é ainda mais expressiva. A prevalência autorreferida é de aproximadamente 15%, enquanto a identificação por exames laboratoriais chega a 45% no Estudo ELZA Brasil. Cerca de um terço da população apresenta colesterol total acima de 200 mg/dL.
A obesidade já alcança aproximadamente 22% da população, enquanto o sobrepeso pode chegar a 40%–45%, e a maioria das pessoas não atinge os níveis mínimos recomendados de atividade física.
Há ainda uma lacuna particularmente preocupante na redução de riscos secundária: estudo realizado no Paraná identificou que mais de 90% das pessoas acompanhadas na Estratégia Saúde da Família após infarto ou AVC não utilizavam estatina, e a maioria apresentava LDL acima dos níveis recomendados.
Novos marcadores podem mudar a identificação do risco
Maria Cristina de Oliveira Izar (UNIFESP/SOCESP) apresentou evidências sobre três ferramentas que podem ampliar a capacidade de identificar risco cardiovascular: Lp(a), ApoB e escore de cálcio coronariano.

A Lp(a) é predominantemente determinada geneticamente e está associada causalmente à condição coronariana aterosclerótica e à estenose aórtica calcífica. Valores acima de 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) são considerados agravantes de risco, e as diretrizes recomendam pelo menos uma dosagem ao longo da vida, especialmente em situações de maior risco.
A ApoB permite estimar o número de partículas aterogênicas — informação que pode não ser capturada adequadamente pelo LDL-colesterol isolado. Sua utilização é particularmente relevante em pessoas com diabetes, hipertrigliceridemia, síndrome metabólica e resistência à insulina.
Já o escore de cálcio coronariano permite identificar aterosclerose subclínica e pode apoiar decisões quando há incerteza sobre a conduta. Estudos brasileiros apresentados no encontro indicam que estratégias orientadas pelo escore podem ser mais custo-efetivas do que estratégias convencionais em diferentes cenários do SUS.
Diretrizes avançaram. Agora é preciso implementar
Henrique Bianco, presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), apresentou a nova Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Redução de Riscos da Aterosclerose 2025.

A nova diretriz introduz a categoria de risco extremo, para a qual estabelece meta de LDL inferior a 40 mg/dL. Para pessoas de muito alto risco, a meta é inferior a 50 mg/dL. O documento também incorpora a Lp(a) como agravante de risco e amplia a consideração de diabetes, condição renal crônica, proteína C-reativa e fatores relacionados à saúde cardiovascular das mulheres.
O problema é que ainda existe um grande distanciamento entre essas recomendações e a prática. O registro REACT Brasil mostrou que a prescrição combinada de inibidor da ECA e estatina em redução de riscos primária era de aproximadamente 28%, caindo para 24% após um ano. No registro NÍTIDO, realizado em 25 territórios, 55% das pessoas com condição coronariana ou arterial periférica não recebiam estatina na intensidade recomendada.
Em âmbito internacional, mais de 80% das pessoas classificadas como de alto ou muito alto risco não atingem as metas de LDL, e apenas cerca de 20% recebem tratamento combinado conforme recomendado.
O acesso ao tratamento também é uma questão de política pública
No segundo painel, moderado por Danilo Campos (Ministério da Saúde), Erlon Oliveira (Instituto de Pesquisa HCor), Kátia Audi (ANS) e Paulo Nascimento (SAPS/MS) discutiram caminhos para transformar as recomendações em cuidado efetivo.

Um dos principais pontos identificados foi a necessidade de reduzir barreiras de acesso às estatinas de alta potência. A atorvastatina está atualmente disponível no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, e não no componente básico da APS, o que pode dificultar sua utilização nos serviços. Na prática, profissionais frequentemente recorrem à sinvastatina, disponível nos postos, mesmo quando uma estatina de maior potência seria indicada.
Também foi reforçada a necessidade de olhar para além da terapêutica medicamentosa. As lacunas relacionadas à alimentação, atividade física e cessação do tabagismo são expressivas. Determinantes sociais, como segurança pública e acesso a espaços adequados para atividade física, influenciam diretamente a possibilidade de incorporar esses cuidados ao cotidiano.

Na saúde suplementar, Kátia Audi (ANS) trouxe a dimensão de um setor que atende aproximadamente 53 milhões de beneficiários e que ainda enfrenta fragmentação, acesso descoordenado e necessidade de maior estratificação de risco. O projeto MACOR, com 25 operadoras desenvolvendo 25 projetos, busca testar modelos de continuidade e coordenação do cuidado.
Experiências mostram que a APS pode fazer diferente
No terceiro painel, moderado por Patrícia de Luca (AHF), experiências concretas mostraram que é possível avançar quando dados, organização dos processos de trabalho e educação permanente são combinados.
Em Maracanaú (CE), município com aproximadamente 249,7 mil habitantes, 31 UBS e 75 equipes de Saúde da Família, apenas duas das seis áreas de vigilância inicialmente registravam a estratificação de risco cardiovascular no prontuário eletrônico.
A partir de abril de 2025, a gestão implantou ações de sensibilização, elaborou um guia passo a passo para utilização do prontuário, padronizou o instrumento de estratificação e capacitou médicos, coordenadores e gerentes. O resultado foi a estratificação de mais de 5 mil pessoas em curto período, permitindo organizar melhor o cuidado e direcionar a oferta de serviços especializados.

Rayana Nascimento (Secretaria Municipal de Saúde de Maracanaú) apresentou essa experiência como exemplo de que mudanças na organização da APS podem produzir resultados em escala sem depender exclusivamente de novas tecnologias de alto custo.
HipercolBrasil: encontrar uma pessoa pode significar encontrar uma família inteira
José Krieger (InCor-HCFMUSP) apresentou os resultados do programa HipercolBrasil, que já identificou mais de 3.300 casos-índice, dos quais aproximadamente 40% apresentam mutações genéticas, e realizou rastreamento em cerca de 4.300 familiares.

Em 11 cidades identificadas por apresentarem número de infartos acima do esperado, o rastreamento encontrou 13 a 16 casos-índice, levando à identificação de 2.214 familiares afetados.
A experiência mostra o potencial do rastreamento em cascata: uma identificação na APS pode desencadear uma investigação familiar capaz de antecipar diagnósticos e oportunidades de cuidado. O programa também demonstrou que o diagnóstico molecular pode modificar a conduta: entre 260 pessoas inicialmente suspeitas de hipercolesterolemia familiar, 8 apresentavam sitosterolemia, condição cujo tratamento é principalmente baseado em intervenção alimentar.
A participação de Denise Panico, pessoa com hipercolesterolemia familiar e usuária do SUS, trouxe ao encontro a perspectiva de quem percorreu essa jornada. Seu diagnóstico de colesterol elevado ocorreu aos 18 anos, mas o diagnóstico formal de hipercolesterolemia familiar só veio posteriormente, permitindo a identificação da condição também em familiares.
Carta de Recomendações: transformar evidências em compromissos

O encerramento do encontro, com a participação dos painelistas e convidados, foi dedicado às próximas etapas e à leitura da Carta de Recomendações ao Ministério da Saúde, CONASS, CONASEMS e demais autoridades, com convite para o endosso das instituições presentes.
Entre os principais compromissos propostos estão:
Ampliar o acesso ao tratamento na APS, com a inclusão da atorvastatina no componente básico da assistência farmacêutica, além da ampliação do acesso a rosuvastatina e ezetimiba e avaliação de outras alternativas terapêuticas para situações específicas.
Concluir a atualização do PCDT de Dislipidemia, incorporando evidências atuais, metas lipídicas, critérios de estratificação e fluxos de cuidado capazes de orientar a APS.
Ampliar o acesso a Lp(a) e ApoB, incorporando esses marcadores às estratégias de avaliação do risco cardiovascular quando clinicamente indicados.
Fortalecer a identificação da hipercolesterolemia familiar, expandindo o rastreamento em cascata do HipercolBrasil para a APS e estabelecendo parcerias entre academia, serviços e gestão municipal.
Utilizar o prontuário eletrônico como ferramenta de redução de riscos, inclusive com a possibilidade de alertas automáticos para LDL acima de 190 mg/dL ou colesterol total acima de 300 mg/dL, favorecendo a identificação de casos suspeitos de hipercolesterolemia familiar.
Fortalecer a educação permanente das equipes da APS, especialmente em estratificação de risco, uso adequado das terapias disponíveis e abordagem dos autocuidados.
Avançar na produção de evidências nacionais, incluindo a construção de um banco de dados genômicos brasileiro com pelo menos 15 mil indivíduos para aprimorar a validação de escores de risco poligênico na população brasileira.
Da evidência à implementação
Os dados apresentados no encontro deixam clara a dimensão do desafio: 16 milhões de pessoas convivendo com condições cardiovasculares; apenas 30% das pessoas idosas com hipertensão apresentando níveis adequados de pressão arterial; até 45% de prevalência laboratorial de dislipidemia; mais de 90% das pessoas acompanhadas na APS após infarto ou AVC sem uso de estatina em um estudo brasileiro; e mais de 80% das pessoas de alto ou muito alto risco sem atingir as metas de LDL em dados internacionais.

Ao mesmo tempo, experiências como as de Maracanaú e do HipercolBrasil mostram que existem caminhos concretos para mudar esse cenário.
Para o FórumCCNTs, o desafio agora é transformar evidências em implementação, implementação em políticas públicas e políticas públicas em resultados de saúde. A Carta de Recomendações construída no encontro busca contribuir exatamente para esse movimento: fortalecer a APS, reduzir barreiras de acesso, ampliar o diagnóstico oportuno e garantir que as pessoas em maior risco cardiovascular sejam identificadas e recebam, no tempo adequado, o cuidado de que necessitam.
Na saúde cardiovascular, cada diagnóstico antecipado e cada barreira removida podem representar uma oportunidade de evitar um infarto, um AVC ou uma morte prematura.



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