Evolução das políticas de diabetes no Brasil: conquistas, desafios e os próximos passos

Em entrevista ao FórumCCNTs, a Dra. Karla Melo, médica endocrinologista, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Departamento de Saúde Pública e Advocacy da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), fala sobre a trajetória das políticas públicas para o diabetes no Brasil, as conquistas alcançadas nos últimos anos e os desafios que ainda precisam ser enfrentados para ampliar o acesso a tecnologias e tratamentos no SUS.
Com mais de cinco décadas de vivência pessoal com o diabetes tipo 1, a Dra. Karla combina conhecimento técnico, experiência profissional e vivência cotidiana da condição. Na entrevista, ela destaca como a articulação entre pessoas que vivem com diabetes, sociedades científicas e organizações da sociedade civil pode transformar evidências em políticas públicas — e fazer com que experiências brasileiras influenciem, inclusive, decisões internacionais.
FórumCCNTs: Como você avalia a evolução das políticas públicas relacionadas ao diabetes no Brasil?
Dra. Karla Melo: Tivemos avanços muito importantes, especialmente na incorporação de tecnologias e medicamentos que hoje fazem parte do cuidado de muitas pessoas com diabetes no SUS. Mas ainda temos um caminho significativo pela frente.
Um dos aprendizados mais importantes foi perceber que a advocacia em saúde precisa unir ciência, experiência de vida e compreensão das necessidades do sistema público. Quem vive com uma condição crônica conhece, na prática, as dificuldades enfrentadas no cuidado. As sociedades científicas, por sua vez, contribuem com as evidências clínicas. Quando esses conhecimentos são reunidos e organizados, conseguimos construir propostas mais consistentes para as políticas públicas.
FórumCCNTs: O que é fundamental para transformar uma necessidade em uma política pública?
Dra. Karla Melo: Primeiro, é preciso identificar claramente o problema. Depois, buscar na literatura científica quais soluções podem enfrentá-lo e compartilhar essa construção com parceiros.
Também é fundamental delimitar a população que será beneficiada e quantificar esse público. Esse é um ponto muito importante para o financiador público, porque precisamos compreender o impacto da proposta para o SUS.
Outro aspecto essencial é olhar para a perspectiva do gestor. Evidências clínicas são indispensáveis, mas o impacto orçamentário também precisa ser considerado. Aprendemos, inclusive, que critérios excessivamente baseados em indicações clínicas podem tornar uma proposta muito ampla. Em algumas situações, critérios objetivos, como faixas etárias, ajudam a definir inicialmente uma população prioritária e tornam a incorporação mais viável.
Por isso, a advocacia precisa ser estruturada e baseada em evidências. E precisamos atuar nacionalmente para reduzir as desigualdades entre estados e municípios, evitando que o CEP ou a condição socioeconômica determinem a qualidade do cuidado recebido.
FórumCCNTs: Uma das principais conquistas foi a incorporação dos análogos de insulina. O que essa experiência representa?
Dra. Karla Melo: A incorporação dos análogos de insulina de ação rápida foi um marco. Conseguimos demonstrar, por meio de estudos publicados em revistas científicas internacionais, benefícios como a redução de episódios de hipoglicemia grave e noturna, além de melhora, ainda que discreta, da hemoglobina glicada e da glicemia após as refeições.
Essa experiência ultrapassou as fronteiras do Brasil. O trabalho desenvolvido pela SBD e seus parceiros foi utilizado como referência no processo que levou à inclusão dos análogos de insulina de ação rápida na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024.
É uma demonstração muito importante de que uma política construída no Brasil pode contribuir para decisões que beneficiam pessoas com diabetes em outros países.
FórumCCNTs: E quais são hoje os principais desafios para as pessoas com diabetes tipo 2?
Dra. Karla Melo: No diabetes tipo 2, precisamos avançar principalmente na atenção primária à saúde. É necessário identificar precocemente o risco cardiovascular e renal, especialmente a presença de insuficiência cardíaca e doença renal associada ao diabetes, e utilizar adequadamente os medicamentos que oferecem proteção para esses órgãos, além da glicemia.
Também precisamos tratar de maneira adequada fatores de risco como hipertensão e alterações dos lipídios.
Outro desafio é ampliar as opções terapêuticas disponíveis no sistema público, especialmente medicamentos que possam combinar redução do peso corporal, proteção cardiovascular e gerenciamento glicêmico. Também precisamos olhar com mais atenção para o pré-diabetes, criando estratégias de identificação e intervenção capazes de reduzir a progressão para o diabetes.
FórumCCNTs: E no diabetes tipo 1?
Dra. Karla Melo: Ainda temos uma lacuna importante. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do diabetes tipo 1 continua contemplando insulinas humanas, incluindo a insulina regular. Na minha avaliação, o análogo de ação rápida já deveria fazer parte desse protocolo de forma mais ampla.
Hoje, a evolução terapêutica prevista inclui a combinação de análogo de ação rápida e análogo de ação prolongada para situações clínicas específicas. Também avançamos na possibilidade de migração da NPH para a insulina glargina para crianças e adolescentes de 2 a 17 anos e para pessoas com 70 anos ou mais com diabetes tipo 2.
FórumCCNTs: A monitorização contínua da glicose (MCG) parece ser o próximo grande desafio. Em que ponto estamos?
Dra. Karla Melo: A MCG é, de fato, o próximo passo. A solicitação de incorporação ao SUS foi inicialmente negada pela Conitec por causa do impacto orçamentário, e não por falta de evidências sobre seus benefícios clínicos.
A partir disso, mudamos a estratégia. Em vez de propor inicialmente a incorporação para todas as pessoas com diabetes tipo 1, estamos defendendo uma implementação progressiva, começando por populações prioritárias: crianças e adolescentes, mulheres com diabetes tipo 1 durante a gestação e pessoas idosas com diabetes tipo 1.
Essa estratégia permite delimitar melhor o número de pessoas beneficiadas e, ao mesmo tempo, construir experiência e evidências para uma futura ampliação.
Um dos grandes benefícios da MCG é permitir acompanhar o que acontece durante a noite. Uma pessoa pode dormir com uma glicemia de 200 mg/dL e acordar com 90 mg/dL. À primeira vista, o resultado parece positivo. Mas o sensor mostra que houve uma queda importante durante o sono, algo que a medição pontual não permite identificar.
FórumCCNTs: E quanto aos sistemas automatizados de infusão de insulina?
Dra. Karla Melo: Essa é outra fronteira importante. Os sistemas atuais são automatizados e utilizam informações da glicose para ajustar a administração de insulina em tempo real.
Participei de uma audiência no Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a obrigação das operadoras de planos de saúde de custear essa tecnologia. A decisão estabeleceu a obrigação de cobertura em determinadas condições e representa um precedente importante.
O problema é que grande parte das pessoas que utilizam sistemas automatizados no Brasil ainda chegou a essa tecnologia por meio da judicialização. Isso evidencia uma questão de equidade: uma tecnologia não pode estar disponível apenas para quem consegue recorrer à Justiça. Precisamos avançar para que também esteja acessível às pessoas que dependem exclusivamente do SUS.
FórumCCNTs: O que a experiência brasileira ensina para outros movimentos de advocacia em saúde?
Dra. Karla Melo: Ensina que é possível transformar uma necessidade identificada por quem vive com uma condição de saúde em uma proposta de política pública respaldada por evidências.
O Brasil desenvolveu uma experiência muito relevante de advocacia em diabetes. Quando conseguimos combinar mobilização, conhecimento técnico, evidências científicas e compreensão das necessidades do sistema de saúde, podemos influenciar decisões nacionais e até internacionais.
Esse modelo não precisa ficar restrito ao diabetes. Ele pode ser utilizado por pessoas e organizações que atuam em outras condições crônicas, como câncer, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias.
FórumCCNTs: Quais são, então, os próximos passos?
Dra. Karla Melo: Temos algumas prioridades muito claras: avançar na incorporação da MCG para populações prioritárias; trabalhar pela ampliação do acesso aos sistemas automatizados de infusão de insulina no SUS; melhorar o cuidado das pessoas com diabetes tipo 2, especialmente em relação à proteção cardiovascular e renal; e fortalecer as estratégias de identificação e intervenção no pré-diabetes.
Mas existe um princípio que deve orientar todas essas iniciativas: o acesso ao cuidado não pode depender de onde a pessoa mora ou de sua condição socioeconômica.
A evolução das políticas públicas de diabetes no Brasil mostra que mudanças são possíveis. O desafio agora é transformar as conquistas já alcançadas em acesso mais amplo, equitativo e oportuno às melhores opções disponíveis de cuidado.




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