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Linguagem Importa Sempre: quando uma palavra muda a forma de cuidar

Foto do escritor: FórumCCNTs
FórumCCNTs
há 11 minutos
5 min de leitura

De “diabético” a “pessoa com diabetes”, de “obeso” a “pessoa com obesidade”: mudar a linguagem é também mudar a forma como enxergamos, acolhemos e cuidamos de quem vive com uma condição crônica


Para a psiquiatra Dra. Monica Silveira, na área de saúde mental o problema é verdadeiro “festival de horrores”, com expressões que transformam sofrimento em deboche: “é frescura”, “é falta de fé”, “é mimimi”. Termos como “deprimido”, “ansioso” e “compulsivo” também passaram a ser usados banalmente, muitas vezes sem relação com diagnósticos ou sofrimento reais.


Dra. Monica Silveira durante evento "Diabesidade, como combater essa dupla?" Imagem: FórumCCNTs
Dra. Monica Silveira durante evento "Diabesidade, como combater essa dupla?" Imagem: FórumCCNTs

Já para a nutricionista Glenda Cardoso, que vive com uma condição crônica, uma palavra aparentemente simples pode carregar uma história inteira. Ela conta que seu marido ficava “extremamente triste e ofendido” quando era chamado de “gordo”, porque o termo remetia ao bullying que sofreu na infância.


São experiências diferentes, mas que apontam para a mesma questão: a linguagem não é neutra.


O problema começa quando a condição vira identidade


“Diabético”. “Obeso”. “Portador de diabetes”. “O doente do leito X”.


Expressões incorporadas ao cotidiano podem parecer inofensivas justamente porque foram repetidas durante anos. Mas elas têm algo em comum: colocam a condição de saúde no lugar da pessoa.


“Pessoas com condições crônicas não são a sua condição”, destaca Glenda. Elas são profissionais, mães, pais, estudantes, amigos, atletas, artistas, crianças, adolescentes, idosos. A condição pode ocupar uma parte importante de suas vidas, mas não define sua identidade.


É por isso que a proposta de utilizar “pessoa com diabetes”, “pessoa com obesidade” ou “pessoa que vive com diabetes” vai muito além de uma preferência de linguagem. É, segundo a endocrinologista Dra. Hermelinda Pedrosa, uma maneira de reconhecer que existe uma pessoa antes do diagnóstico — e depois dele também.


Dra. Hermelinda acompanha essa mudança há anos. O movimento de evitar a adjetivação de pessoas com diabetes ganhou força internacionalmente em 2017, e, desde então, a discussão avançou para sociedades científicas, universidades, serviços de saúde, documentos técnicos e espaços de formulação de políticas públicas.


Uma palavra pode afastar alguém do cuidado


O impacto não é apenas emocional.


Quando a linguagem associa uma condição a culpa, fracasso ou falta de disciplina, ela pode contribuir para que a pessoa se sinta julgada justamente no lugar onde deveria encontrar acolhimento. O estigma está associado a sofrimento psicológico e pode comprometer a capacidade de enfrentamento e o empoderamento necessários para viver com uma condição crônica. Mais grave ainda: algumas pessoas passam a evitar a busca por cuidado por anteciparem o julgamento que encontrarão nos serviços de saúde.


É nesse ponto que expressões aparentemente técnicas também precisam ser revistas.


“Diabetes descontrolado”, por exemplo, pode carregar uma ideia de responsabilidade exclusivamente individual por uma situação que resulta de múltiplos fatores. O mesmo ocorre quando “obeso” é utilizado como substantivo ou quando “portador de diabetes” é empregado para descrever alguém.


Glenda Cardoso durante painel do 16º Encontro do FórumCCNTs. Foto: FórumCCNTs
Glenda Cardoso durante painel do 16º Encontro do FórumCCNTs. Foto: FórumCCNTs

E há uma palavra particularmente presente nos serviços de saúde que também merece reflexão: “paciente”. Para Glenda, pessoas que vivem com condições crônicas são, muitas vezes, “impatientes”. Elas tomam decisões todos os dias, fazem escolhas, negociam prioridades, manejam tratamentos e convivem continuamente com sua condição. Não são espectadoras do próprio cuidado.


O que acontece quando o profissional não percebe o peso das palavras?


Dra. Mônica lembra de uma situação envolvendo uma pessoa com anorexia. Ao ouvir um comentário de um profissional de saúde — “Tanta gente passando fome e a pessoa vomita a comida” —, ficou evidente como a falta de conhecimento e de empatia pode destruir, em poucos segundos, uma relação terapêutica construída ao longo de muito tempo.


A questão, portanto, não é simplesmente substituir uma lista de palavras proibidas por outra lista de palavras recomendadas. É compreender por que determinada linguagem machuca, exclui ou culpabiliza.


E isso vale inclusive para quem está tentando fazer a mudança. Dra. Hermelinda chama de “trabalho de formiguinha” o esforço de transformar hábitos linguísticos profundamente arraigados: repetir, explicar, corrigir, formar novas gerações e ocupar espaços onde essas escolhas podem se multiplicar.


Ela já distribui o material Linguagem Importa, do qual é coautora, no início das turmas de residência. Segundo seu relato, depois de algumas semanas os residentes começam a incorporar espontaneamente as novas formas de se comunicar. O tema também chegou à prova de residência unificada da USP, com duas questões específicas sobre linguagem.


Não basta trocar a palavra


Há, porém, uma armadilha: acreditar que a mudança termina quando se aprende a dizer “pessoa com diabetes”.


Glenda chama atenção para algo que frequentemente passa despercebido: o próprio ambiente também fala.


Uma cadeira inadequada, uma maca que não oferece suporte, um espaço físico que não considera diferentes corpos ou uma estrutura que dificulta o acesso podem transmitir a mesma mensagem de exclusão que uma palavra ofensiva: “você não é bem-vindo aqui”.


O tom de voz e a linguagem corporal também fazem parte dessa comunicação. Como sintetiza a discussão, não adianta utilizar a expressão correta se ela vier acompanhada de um tom condescendente, impaciente ou julgador.


A linguagem respeitosa, portanto, não é apenas verbal. Palavras, gestos e ambientes precisam estar coerentes entre si.


Da sala de consulta para a sociedade


A mudança também não pode ficar restrita aos profissionais de saúde.


Mídia, universidades, sociedades científicas, gestores públicos, parlamentares e organizações da sociedade civil ajudam diariamente a construir a maneira como a sociedade compreende as CCNTs. Por isso, a disseminação do Linguagem Importa inclui recomendações específicas para comunicação e vem alcançando espaços institucionais e políticos.


Dra. Hermelinda Pedrosa durante painel do 17º Encontro do FórumCCNTs. Imagem: FórumCCNTs
Dra. Hermelinda Pedrosa durante painel do 17º Encontro do FórumCCNTs. Imagem: FórumCCNTs

A Dra. Hermelinda lembra que a transformação exige persistência, inclusive diante da resistência inicial. Termos que hoje parecem inadequados foram, durante muito tempo, ensinados e reproduzidos como naturais. Mudar exige disposição para reconhecer esse legado e fazer diferente.


E a mudança pode começar em qualquer lugar.


Pode acontecer quando um professor corrige um termo em uma aula. Quando um profissional reformula uma pergunta durante uma consulta. Quando um jornalista escolhe “pessoa com obesidade” em vez de “obeso”. Quando um parlamentar abandona “portadores de diabetes” em seus documentos. Ou quando alguém simplesmente pergunta como outra pessoa prefere ser tratada.


“Não trate alguém de um jeito que você não gostaria de ser tratado”


Para a Dra. Monica, existe uma regra simples capaz de orientar essa transformação mesmo quando não se conhece toda a terminologia adequada: “Não trate alguém de um jeito que você não gostaria de ser tratado.”


É uma regra especialmente importante para crianças e adolescentes, quando experiências de bullying e discriminação podem começar a moldar a relação com o próprio corpo, a condição de saúde e os serviços de cuidado. Mas é também uma responsabilidade de todos os adultos que participam desse processo.


A linguagem pode reduzir alguém a um diagnóstico. Pode atribuir culpa. Pode banalizar sofrimento. Pode fazer uma pessoa desistir de procurar ajuda. Mas pode fazer o contrário. Pode reconhecer a pessoa antes da condição. Pode devolver protagonismo. Pode abrir espaço para confiança. E pode transformar o cuidado.


É por isso que Linguagem Importa não é apenas sobre escolher palavras melhores. É sobre construir uma cultura em que ninguém precise deixar parte de sua identidade do lado de fora para ser acolhido no cuidado em saúde.

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