No 13º Congresso TJCC, FórumCCNTs defende políticas públicas e articulação intersetorial para fortalecer a redução de riscos do câncer

Em dois painéis, rede destacou caminhos para transformar evidências científicas em políticas públicas efetivas. Participação social, advocacy e lançamento de episódio do podcast Saúde Crônica em Foco com Luciana Holtz também marcaram a atuação do FórumCCNTs no evento
O Fórum Intersetorial de CCNTs no Brasil (FórumCCNTs) participou do 13º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), realizado de 29 de setembro a 1º de outubro de 2026, contribuindo para os debates sobre redução de risco, políticas públicas, participação social e articulação entre diferentes setores.

Em dois painéis realizados em 30 de setembro, Mark Barone, fundador e coordenador-geral do FórumCCNTs, destacou que o principal desafio da redução de risco do câncer não é a falta de conhecimento científico, mas a dificuldade de transformar evidências e recomendações em decisões políticas, financiamento, regulação e ações concretas nos territórios.

A participação também permitiu apresentar experiências de advocacy desenvolvidas pela rede e reforçar a importância de integrar as agendas de oncologia, alimentação saudável, obesidade e atividade física. A mensagem central foi clara: a redução de risco exige políticas públicas estruturantes, participação social efetiva e colaboração sustentada entre governo, sociedade civil, ciência e outros setores.
Pesquisa revela confiança na participação social, mas aponta espaço para avançar
Na abertura do congresso, Catherine Moura, CEO da Abrale e líder do movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), apresentou os resultados de uma pesquisa de opinião realizada com participantes do evento, que reuniu mais de 200 respostas.
O levantamento mostrou que 89% acreditam que a participação pode melhorar a saúde pública. Outros 10% consideram que ela ajuda parcialmente, enquanto 1% não sabe ou não percebe esse efeito.

Apesar dessa confiança, 35% dos respondentes afirmaram nunca ter utilizado espaços para manifestar sua opinião; 64% disseram já ter participado de alguma forma e 1% não sabia responder. O contraste evidencia uma oportunidade importante: transformar a percepção positiva sobre a participação em maior envolvimento da população nos processos de decisão.
Entre os canais mais citados estavam petições e campanhas (64%), canais digitais (49%), movimentos e organizações da sociedade civil (47%), consultas públicas (41%) e ouvidorias (40%). Outros espaços mencionados foram fóruns de saúde (32%), audiências públicas (29%), conselhos de saúde (26%) e ações comunitárias (21%). A pesquisa permitia múltiplas respostas.

Os resultados reforçam a necessidade de diversificar os mecanismos de participação, ampliar o acesso à informação e garantir que as contribuições da sociedade sejam consideradas na formulação, implementação e avaliação das políticas públicas.
Para o FórumCCNTs, a participação social não deve se limitar à consulta ou à manifestação de opiniões: precisa criar condições para que as experiências e prioridades da população influenciem decisões e contribuam para respostas mais efetivas e equitativas em saúde.
Da redução de risco às políticas públicas: evidências precisam gerar compromissos
No painel O futuro começa na redução de risco: políticas públicas baseadas em evidências para reduzir o câncer no Brasil, Mark Barone debateu o papel da sociedade civil e das redes na transformação de recomendações científicas em políticas públicas.
Mediada por Bianca Manzoli, representante do grupo de trabalho do TJCC, a sessão contou também com Renato Azeredo Teixeira, da Vital Strategies; Marilia Albiero, da ACT Promoção da Saúde; e Maria Cristina Hoffmann, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).

Renato Azeredo Teixeira apresentou os principais resultados da pesquisa Mais Dados Mais Saúde, abordando percepções da população, comportamentos, desigualdades e lacunas de conhecimento sobre fatores de risco e proteção relacionados ao câncer.
Marilia Albiero apresentou a Agenda Brasil Mais Saudável como um caminho para responder a essas lacunas por meio de propostas que incluem a promoção de ambientes saudáveis, regulação, tributação, restrição da publicidade e redução da exposição a fatores de risco. A agenda conecta áreas como alimentação adequada, manejo do tabaco e do álcool, atividade física e manejo da poluição do ar.
Maria Cristina Hoffmann trouxe a perspectiva das recomendações internacionais, destacando a redução de risco como prioridade de saúde pública e a importância de medidas capazes de reduzir a incidência e a mortalidade por câncer.
Em sua contribuição, Mark ressaltou que a informação, embora indispensável, não é suficiente para modificar comportamentos quando as condições sociais, econômicas e ambientais dificultam escolhas saudáveis. A responsabilidade pela redução de risco não pode recair exclusivamente sobre os indivíduos: cabe também ao poder público criar ambientes favoráveis à saúde, reduzir desigualdades e implementar medidas sustentáveis.
O debate também destacou a importância de transformar dados e recomendações em compromissos políticos concretos. Isso exige mecanismos de cooperação entre diferentes áreas de governo, organizações da sociedade civil, academia, serviços de saúde e setor privado, respeitando a transparência e os objetivos de saúde pública.
Advocacy e articulação intersetorial: como transformar propostas em ação
No segundo painel, Da recomendação de redução de risco do câncer à implementação: o papel das políticas públicas, Mark Barone aprofundou a discussão sobre os obstáculos à implementação e as oportunidades para fortalecer políticas de redução de risco.

Moderada por Lucas Hernandes Corrêa, gerente do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein, a sessão reuniu Felipe Piza, diretor executivo de Responsabilidade Social e Filantropia; Rodrigo Lacerda, da coordenação técnica do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS); Tainá Costa, diretora adjunta de Comunicação, Relações Governamentais e Advocacy da Vital Strategies; e Mark Barone, pelo FórumCCNTs.
A discussão destacou que recomendações científicas só produzem impacto quando acompanhadas de decisões políticas, recursos, instrumentos regulatórios e capacidade de implementação nos territórios. Também ressaltou a necessidade de considerar as desigualdades de acesso e as diferenças entre os contextos locais.
Mark chamou a atenção para a definição das alíquotas do Imposto Seletivo sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas. Previsto na legislação tributária, o instrumento representa uma oportunidade para alinhar a política fiscal aos objetivos de saúde pública. Para que seu potencial preventivo seja aproveitado, a definição das alíquotas deve considerar os efeitos sobre o consumo de produtos nocivos à saúde, e não apenas os objetivos arrecadatórios.
Outro exemplo apresentado foi a mobilização em torno da Política Nacional de Práticas Corporais e Atividades Físicas no SUS. Em março de 2025, uma carta coordenada pelo GT Atividade Física do FórumCCNTs, assinada por mais de 70 lideranças e organizações, foi encaminhada ao Ministério da Saúde, ao CONASS e ao CONASEMS. A iniciativa ilustra como o advocacy coordenado pode fortalecer o diálogo com gestores públicos e contribuir para colocar prioridades na agenda institucional.
Grupos temáticos conectam evidências, advocacy e implementação
A atuação dos grupos temáticos do FórumCCNTs exemplifica como uma rede multissetorial pode transformar conhecimento científico em propostas dirigidas a gestores públicos e tomadores de decisão.

O GT Oncologia trabalha na disseminação do Código Latino-Americano e Caribenho Contra o Câncer, iniciativa da IARC, da OPAS e da OMS que reúne 17 recomendações baseadas em evidências para reduzir o risco da condição de saúde. O código combina ações individuais e políticas públicas, considerando barreiras sociais e estruturais. O grupo reúne organizações como FEMAMA, Amigo_H, ACBG, Instituto Vencer o Câncer, Instituto Oncoguia, Abrale/TJCC, Fundação ProAR e USP, entre outras.
O GT Alimentação Saudável desenvolve propostas de incidência política que conectam alimentação adequada à saúde pública, à proteção da infância, à segurança alimentar e nutricional e à sustentabilidade. A atuação busca fortalecer políticas sobre ambientes alimentares e promover a colaboração entre diferentes áreas de governo e da sociedade.
O GT Obesidade trabalha na elaboração de contribuições técnicas para o Ministério da Saúde sobre o reconhecimento da obesidade como condição crônica de saúde e o acesso ao cuidado e às terapias indicadas no SUS. O grupo também prepara propostas de incidência para ampliar a atenção à redução de risco, à vigilância e ao cuidado da obesidade nas agendas políticas.

Essas frentes se complementam e demonstram que oncologia, alimentação saudável, obesidade e atividade física não são agendas isoladas. Todas dependem de ambientes favoráveis à saúde, políticas de redução de risco, acesso adequado ao cuidado e atuação sobre determinantes sociais e comerciais da saúde.
Saúde Crônica em Foco: diálogo com Luciana Holtz
A participação do FórumCCNTs no congresso também foi marcada pelo lançamento de um episódio do podcast Saúde Crônica em Foco, com Luciana Holtz, fundadora e presidente do Instituto Oncoguia.
A entrevista amplia o espaço de diálogo sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com câncer, a defesa de direitos e a contribuição das organizações da sociedade civil para melhorar as respostas em saúde. Também reforça a importância de ouvir diferentes perspectivas e aproximar experiências concretas dos debates técnicos e políticos sobre as CCNTs.
Por meio do podcast, o FórumCCNTs busca dar visibilidade a lideranças, iniciativas e experiências que contribuem para fortalecer a participação social, disseminar conhecimento e promover políticas mais centradas nas pessoas.
Ouça o episódio com Luciana Holtz: Saúde Crônica em Foco — Spotify.




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