Estudo brasileiro é destaque na Revista Pan-Americana de Saúde Pública
- FórumCCNTs
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Edição especial da revista ressaltou o fortalecimento da Atenção Primária no combate às CCNTs
A Revista Pan-Americana de Saúde Pública, publicação científica da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), lançou uma edição especial dedicada ao fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) no enfrentamento das Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNTs) nas Américas. A edição reúne evidências de que investir em serviços primários acessíveis, resolutivos e de qualidade é uma estratégia viável, custo-efetiva e indispensável para reduzir a mortalidade prematura por CCNTs até 2030.

As CCNTs, como condições cardiovasculares, câncer, diabetes e condições respiratórias crônicas, seguem sendo a principal causa de morte na região. Somente em 2021, cerca de 6 milhões de óbitos foram atribuídos a essas condições nas Américas, sendo quase 40% prematuros, em pessoas com menos de 70 anos. Estima-se ainda que mais de 250 milhões de pessoas convivam com alguma CCNT e necessitem de acompanhamento contínuo ao longo da vida.
A edição especial documenta experiências conduzidas por ministérios da saúde, instituições acadêmicas, organizações da sociedade civil e pela própria OPAS, demonstrando como a APS pode ampliar o rastreamento, o diagnóstico oportuno, o tratamento adequado e o manejo contínuo dessas condições.
Iniciativas regionais e o papel da APS
Um dos eixos centrais da publicação é a iniciativa Better Care for NCDs, da OPAS, que inclui o HEARTS, voltado especialmente ao manejo da hipertensão arterial. Os artigos mostram que o fortalecimento da APS é fundamental para alcançar a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de reduzir em um terço a mortalidade prematura por CCNTs até 2030.
A edição especial, apoiada financeiramente pelo Governo da Dinamarca por meio da OMS, reúne estudos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Peru e Trinidad e Tobago, abordando temas como:
OPAS (Editorial): Acelerando a integração das condições crônicas não transmissíveis na Atenção Primária à Saúde
Bolívia: Relatório especial analisa condições essenciais para o cuidado das CCNTs no Chaco boliviano
Argentina: Estudo avalia uso e conhecimento de diretrizes clínicas para CCNTs
Trinidad and Tobago: Estudo transversal avalia o manejo da hipertensão na Atenção Primária com a abordagem HEARTS
Implementação de protocolos de atendimento à hipertensão e ao diabetes em duas regiões do Nordeste brasileiro
Entre os estudos publicados, o Brasil ganha destaque com a pesquisa “Implementation of hypertension and diabetes care pathways in two regions of the Brazilian Northeast”, que avaliou a implementação de linhas de cuidado para hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) na Atenção Primária à Saúde.
O estudo analisou duas regiões do Nordeste:
a 1ª Região de Saúde da Mata Atlântica, no estado da Paraíba, e
a 7ª Região Metropolitana, no Rio Grande do Norte.
A metodologia incluiu diagnóstico situacional, identificação de barreiras, elaboração de plano de implementação, capacitação das equipes de saúde e avaliação dos resultados por meio de indicadores clínicos, como estratificação de risco cardiovascular, manejo da pressão arterial e manejo glicêmico.
Os resultados demonstram que a implementação das linhas de cuidado foi factível e efetiva, especialmente nos contextos com maior fragilidade inicial e maior tempo de implementação.
Na Paraíba, onde a implementação teve início em janeiro de 2023, os resultados mostraram avanços relevantes: a estratificação de risco cardiovascular passou de 0% para 36%, a pressão arterial na meta aumentou de 33,4% para 62,6% e a glicemia na meta de 26,7% para 77,9%, todos com significância estatística.
No Rio Grande do Norte, onde a implementação começou em junho de 2023, a estratificação de risco cardiovascular aumentou de 0% para 17,4%. As variações nos percentuais de hipertensão arterial na meta (de 47,9% para 48,4%) e do diabetes mellitus tipo 2 com glicemia na meta (de 59,2% para 57,3%) não foram estatisticamente significativas no período analisado.
SUS e APS como pilares no enfrentamento às CCNTs
A principal conclusão do estudo é clara: quanto maior o tempo de implantação e quanto mais desafiador o cenário inicial, maiores tendem a ser os ganhos obtidos, reforçando a importância da continuidade, do apoio institucional e da qualificação permanente das equipes da APS.
Ao evidenciar resultados concretos no contexto brasileiro, o estudo reforça o papel estratégico do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Atenção Primária como pilares no enfrentamento das CCNTs. Também oferece subsídios técnicos para gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas, demonstrando que organizar o cuidado, capacitar equipes e estruturar fluxos clínicos salva vidas.
A edição especial da Revista Pan-Americana de Saúde Pública consolida um consenso cada vez mais evidente: sem uma Atenção Primária forte, integrada e centrada nas pessoas, não será possível enfrentar a epidemia de CCNTs nas Américas. O caso brasileiro, em especial, mostra que mesmo em contextos desafiadores é possível avançar, desde que haja planejamento, investimento e compromisso com a equidade em saúde.
