19º Encontro do FórumCCNTs destaca integração do cuidado e avaliação de resultados como prioridades para o SUS

Debates sobre o Plano Nacional de Saúde 2028–2031 e experiências de atenção cardiovascular mostram que políticas intersetoriais, organização das redes e acompanhamento de resultados são fundamentais para avançar cuidado das as CCNTs no Brasil
Como transformar políticas públicas em resultados concretos para a população? Essa questão permeou os debates da segunda etapa do 19º Encontro do FórumCCNTs, realizada em 30 de outubro de 2026. Especialistas e representantes do poder público, de organismos internacionais e da iniciativa privada discutiram prioridades para o Plano Nacional de Saúde (PNS) 2028–2031 e apresentaram experiências de integração do cuidado cardiovascular.

As contribuições convergiram para a necessidade de fortalecer a promoção da saúde, superar a fragmentação dos serviços e avaliar as políticas pelo impacto que produzem na vida das pessoas.
Plano Nacional de Saúde 2028–2031: é preciso avançar da formulação à implementação
O painel sobre as prioridades para o Plano Nacional de Saúde foi moderado por Átila Trapé, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP), com a participação de Fernando Cupertino, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS); Angela Honda, da Fundação ProAr/Unifesp; e Sheila Martins, da Rede Brasil AVC.
A dimensão dos desafios ficou evidente nos dados apresentados. Cerca de 149 mil mortes prematuras, entre pessoas de 30 a 69 anos, são atribuídas a causas cardiovasculares, o equivalente a 37,5% dos óbitos nessa faixa etária. O envelhecimento acelerado da população amplia a necessidade de respostas coordenadas: o Brasil está duplicando sua população 60+ em aproximadamente 25 anos, enquanto o Japão levou cerca de um século para passar pelo mesmo processo.

Fernando Cupertino destacou que o país já dispõe de políticas e estruturas importantes, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir sua implementação e continuidade. Para ele, a avaliação precisa fazer parte da rotina da gestão pública, permitindo identificar avanços, limitações e razões para os resultados alcançados. “É preciso avaliar. É preciso medir aquilo que conseguimos fazer e aquilo que não conseguimos e por que não conseguimos fazer”, afirmou.
O financiamento também foi apontado como um desafio estrutural. Segundo os dados apresentados por Cupertino, estados e municípios respondem conjuntamente por aproximadamente 60% dos recursos destinados ao SUS, enquanto a participação federal corresponde a 40%. Ele defendeu maior equilíbrio nessa distribuição e ressaltou a importância de fortalecer a atenção primária, qualificar os agentes comunitários de saúde e estabelecer mecanismos de avaliação dos serviços contratualizados.
Angela Honda chamou a atenção para a necessidade de incluir as condições respiratórias crônicas, especialmente asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), entre as prioridades nacionais, com atenção equivalente à dedicada a condições como hipertensão e diabetes. Também alertou para o uso de dispositivos eletrônicos para fumar entre crianças e adolescentes, inclusive na faixa dos 9 aos 12 anos.
A especialista destacou o potencial dos agentes comunitários de saúde na identificação de fatores ambientais que agravam doenças respiratórias. A partir de sua experiência, relatou como a capacitação desses profissionais permite reconhecer situações que nem sempre chegam ao conhecimento das equipes nas consultas, como infiltrações, mofo, exposição ao tabaco e poluição decorrente da queima de resíduos. A orientação sobre a técnica correta de uso de inaladores também pode contribuir para melhorar os resultados do cuidado.
Sheila Martins ressaltou que a hipertensão arterial permanece como um dos principais fatores de risco modificáveis para condições cardiovasculares. Os dados apresentados revelam lacunas importantes: aproximadamente 30% das pessoas com hipertensão não têm diagnóstico; 10% das diagnosticadas não recebem tratamento; e 41% das que estão em tratamento não atingem as metas pressóricas. Outro dado particularmente preocupante é que apenas cerca de 20% das pessoas que frequentam unidades de saúde têm a pressão arterial aferida.
Para enfrentar esse cenário, Sheila defendeu a expansão da iniciativa HEARTS na atenção primária, o acesso oportuno ao tratamento de AVC e infarto em todo o território nacional e o fortalecimento da reabilitação, considerada uma das maiores lacunas da linha de cuidado cardiovascular. Também reforçou que os serviços precisam ser avaliados pelo que efetivamente conseguem transformar na saúde da população. “Eu não posso medir por procedimento. Eu tenho que medir por resultado, por desfecho”, afirmou.
Átila Trapé ampliou a discussão sobre promoção da saúde ao destacar que fatores como mobilidade, planejamento urbano, segurança e disponibilidade de espaços públicos influenciam diretamente a possibilidade de praticar atividade física. Também alertou que os indicadores nacionais podem esconder desigualdades: o aumento da atividade física no lazer, por exemplo, tem se concentrado especialmente entre homens brancos e de maior renda. Por isso, defendeu políticas que considerem as condições concretas de vida e garantam que as ações alcancem também os grupos mais vulnerabilizados.
As discussões apontaram para um PNS que não se limite a estabelecer prioridades, mas que assegure condições de implementação, financiamento, articulação entre setores e avaliação contínua. Promoção da saúde, comunicação acessível, redução do uso de produtos nocivos, fortalecimento da atenção primária e redução das desigualdades foram elementos recorrentes nas contribuições.
Experiências intersetoriais mostram caminhos para melhorar o cuidado cardiovascular
A integração entre diferentes instituições e níveis de atenção foi o eixo do painel “Intersetorialidade e multistakeholders: a experiência complementar estruturante que organiza os cuidados e melhora os desfechos das condições cardiovasculares no Brasil”, moderado por Verônica Wottrich, do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS).
Maria Cristina Hoffmann, da Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), apresentou a iniciativa HEARTS, implementada em 28 países, dos quais 14 já contam com mais de 80% de implementação na rede. A estratégia reúne seis componentes: hábitos saudáveis, evidências e protocolos, acesso a medicamentos, estratificação do risco cardiovascular, trabalho em equipe multiprofissional e monitoramento.
Hoffmann ressaltou que a proposta não é criar novos procedimentos, mas organizar e qualificar o que já existe no SUS, com protocolos, capacitação, acesso a tecnologias e acompanhamento dos indicadores. Entre os avanços em desenvolvimento, destacou o projeto-piloto de uma calculadora de risco cardiovascular para possível incorporação ao e-SUS APS. A ferramenta poderá apoiar a identificação de pessoas com maior risco e orientar decisões das equipes de atenção primária.

Na experiência apresentada por Yara Baxter, da Fundação Novartis, a Iniciativa Cardio utiliza o conceito de Living Lab, um ambiente de inovação aberta e cocriação que envolve gestores, profissionais de saúde e população na construção de soluções adaptadas às necessidades locais. A iniciativa já alcança 50 municípios e mais de 1.200 Unidades Básicas de Saúde no Brasil, além de estar em expansão para Bogotá e Lisboa.
Os resultados apresentados incluem uma experiência em São Paulo na qual o indicador de alcance das metas pressóricas triplicou em 15 meses. Após quatro anos, também foi registrada uma redução de 31% nos eventos de AVC. A iniciativa conta com um banco de 80 soluções validadas ou prototipadas, das quais dez foram selecionadas para expansão. Baxter destacou ainda a importância de direcionar as ações a municípios com maiores necessidades, utilizando indicadores do SUS e critérios de vulnerabilidade.
Thaís Melo, da Boehringer Ingelheim, apresentou um conjunto de iniciativas voltadas à redução de riscos e à organização das redes de atendimento ao AVC e ao infarto. O programa Fast Heroes trabalha com crianças de 6 a 10 anos, em parceria com escolas, para ensinar a reconhecer os sinais de AVC e acionar o SAMU. A iniciativa Angels apoia hospitais na qualificação dos fluxos de atendimento, enquanto o Telestroke conecta serviços com menor disponibilidade de especialistas a centros de referência. Na área de infarto, o Sprint/Sprint One atua na organização das redes e na capacitação das equipes hospitalares.
Segundo Thais, mais de 400 hospitais foram preparados para o atendimento ao AVC. Em 29 municípios participantes, foi observada uma redução de 15% na mortalidade hospitalar por AVC. Em algumas localidades com Telestroke, as taxas de tratamento com trombólise superaram 40%. Nos centros participantes do Sprint, a redução média da mortalidade por infarto foi de 30%. Somadas, as diferentes iniciativas já apoiaram mais de 750 instituições.
Thaís ressaltou que nenhuma organização consegue enfrentar isoladamente a carga das condições cardiovasculares. Defendeu a continuidade da colaboração com o poder público, especialmente para ampliar o acesso em regiões menos assistidas.
A experiência da Planificação da Atenção à Saúde, apresentada por Maria José Evangelista, do CONASS, mostrou a dimensão que iniciativas de organização das redes podem alcançar. A metodologia está presente em 1.857 municípios brasileiros, mais de um terço do total, e busca integrar a atenção primária aos serviços especializados, ambulatoriais e hospitalares.
Maria José destacou que programas como HEARTS e Iniciativa Cardio podem se complementar dentro de uma estrutura já existente, evitando a fragmentação de esforços. “O que a gente tem aqui. E aí a gente se agregar, juntar que a gente vai crescer mais rapidamente”, afirmou. Ela também apresentou a discussão sobre a Síndrome Cardiorrenal Hepato-Metabólica, que propõe uma abordagem integrada de condições frequentemente associadas, como obesidade, condição renal crônica, esteatose hepática e complicações do diabetes.
Carmen Moura, da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, destacou a Política Nacional de Atenção Especializada, instituída em 2023, como instrumento para fortalecer o cuidado compartilhado e a integração entre os pontos da rede. Apresentou também o programa Agora Tem Especialista, que já havia ultrapassado 400 mil atendimentos integrados desde janeiro de 2025, conforme informado no painel.
Entre as ações mencionadas estão a ampliação da oferta de exames cardiovasculares em policlínicas — como eletrocardiograma, teste ergométrico, Holter e MAPA — e a organização de linhas de cuidado para hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, AVC e outras cardiopatias. A identificação de pessoas com risco cardiovascular médio e alto, além do fortalecimento da telessaúde e da teleregulação, também foi apontada como prioridade. Carmen afirmou que o Ministério trabalha para posicionar a atenção especializada de forma mais efetiva na rede e se colocou à disposição para dar continuidade ao diálogo com as instituições.
Verônica Wottrich sintetizou um dos principais desafios discutidos: garantir que a atenção especializada esteja integrada à atenção primária, sem romper o vínculo das pessoas com suas equipes de referência. “Não existe competição no cuidado da saúde da população. A gente precisa fazer integração”, afirmou. Para ela, após o diagnóstico ou procedimento especializado, as pessoas devem retornar às equipes com as quais mantêm vínculo, assegurando continuidade e acompanhamento integral.
A moderadora também trouxe uma reflexão sobre a comunicação entre profissionais de saúde e população. Ao compartilhar um dado de sua pesquisa de mestrado, baseada no estudo ELSI-Brasil, relatou que 98% das pessoas entrevistadas disseram sair das unidades de saúde sem compreender as orientações recebidas. O dado reforça que a organização dos serviços, a oferta de medicamentos e a realização de exames precisam ser acompanhadas de uma comunicação que permita às pessoas compreender sua condição de saúde e as razões das recomendações recebidas.
As experiências apresentadas no 19º Encontro do FórumCCNTs evidenciaram que o país já conta com iniciativas relevantes, mas que seu potencial depende da capacidade de conectá-las. A integração entre atenção primária e especializada, a articulação entre programas, a continuidade do cuidado e a avaliação por resultados foram apontadas como caminhos essenciais para melhorar os desfechos cardiovasculares e fortalecer a resposta do SUS às CCNTs.




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